Dormir com o povo, acordar com o absurdo

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Em Moçambique, a pobreza já não basta ser combatida. Precisa ser visitada, fotografada, anunciada e, sempre que possível, partilhada por uma noite. Se for em tenda, melhor. Se for com anúncio prévio, ainda melhor. E se houver aplausos, lágrimas e manchetes no dia seguinte, então o objectivo está plenamente alcançado. A recente decisão da Primeira-Dama de pernoitar num centro de acolhimento de vítimas das cheias em Boane não é apenas um gesto de solidariedade. É, acima de tudo, um exercício acabado de populismo simbólico e mediático.

Comecemos pelo óbvio, para não sermos acusados de insensibilidade: ajudar as vítimas das cheias é um dever do Estado. Levar comida, roupas, produtos de higiene, garantir condições mínimas de dignidade, saúde e segurança não é um favor — é obrigação constitucional. Até aqui, nada a dizer. O problema começa quando a ajuda deixa de ser suficiente e passa a exigir encenação.

Porque alguém decidiu que ajudar não chega. É preciso dormir lá. Dormir com vítimas de cheias tornou-se, aparentemente, o novo selo de autenticidade política. Como se a dor alheia precisasse de companhia institucional para ser legítima. Como se as águas tivessem subido menos, as casas tivessem sido menos destruídas ou as crianças menos traumatizadas caso a Primeira-Dama tivesse regressado a casa no fim do dia.

Mas não. Era preciso ficar. Dormir. Anunciar que se ia dormir. Garantir que todos soubessem que se ia dormir. Mobilizar seguranças, cozinhas, equipas, logística, protocolos, geradores, colchões, perímetros e, claro, fotógrafos invisíveis.

Porque nada diz “solidariedade” como um dispositivo de segurança completo num centro de acolhimento improvisado.

A pergunta que ninguém faz — porque em Moçambique perguntar ainda é visto como falta de educação — é simples: era mesmo necessário pernoitar? O gesto ajudou mais do que um camião adicional de alimentos? Construiu mais casas? Reabilitou estradas? Melhorou o saneamento? Ou apenas produziu uma boa narrativa para consumo público?

Há uma obsessão nacional com a ideia de “estar com o povo”. É uma expressão belíssima, mas profundamente vazia quando reduzida a gestos simbólicos. O povo não precisa que durmam com ele. Precisa que o deixem dormir em paz, em casas que não inundem, com saneamento que funcione e um Estado que apareça antes da tragédia — não depois, com discursos.

Aliás, convém dizê-lo com toda a clareza: o povo já dorme mal todos os dias, com ou sem Primeira-Dama. Dorme mal porque tem fome, porque tem medo, porque vive em zonas de risco, porque não tem para onde ir quando a água sobe. Dormir uma noite ao lado dessas pessoas não aproxima o poder da realidade. Apenas cria a ilusão de proximidade.

E depois há o lado logístico do absurdo, que raramente entra nas notícias simpáticas. Para que uma alta figura do Estado durma num centro de acolhimento, mobiliza-se uma pequena máquina governamental. Seguranças, viaturas, comunicações, planeamento, controlo de acessos, restrições. Tudo isso num espaço que deveria ser, acima de tudo, funcional para quem perdeu tudo. Pergunta legítima: quem ganhou com isso? As vítimas ou o espectáculo?

Em nome da solidariedade, cria-se um ambiente artificial, temporariamente “organizado”, higienizado, quase cenográfico. No dia seguinte, a comitiva vai embora, os seguranças desmontam, os holofotes apagam-se — e as vítimas ficam. Sempre ficam.

Moçambique tem um problema sério com o que poderíamos chamar de “solidariedade performativa”. Ajudar já não basta. É preciso mostrar. Sofrer um bocadinho, mas não demasiado. Dormir em tenda, mas com condições. Comer a mesma comida, mas sabendo que há um plano B. Partilhar o espaço, mas nunca o risco real.

Não se trata de má-fé individual. Trata-se de uma cultura política que confunde empatia com encenação. Que acredita que gestos simbólicos substituem políticas públicas. Que acha que dormir uma noite num centro de acolhimento equivale a enfrentar anos de negligência estrutural.

Se a ideia era mostrar proximidade, talvez fosse mais revolucionário algo menos fotogénico: garantir orçamento permanente para drenagem urbana, investir seriamente em ordenamento do território, impedir construções em zonas de risco, punir quem licencia o “inlicenciável”, planear cidades para pessoas reais — não para discursos.

Mas isso não rende manchete. Não gera aplauso imediato. Não cabe numa fotografia.

A crónica do absurdo é esta: enquanto discutimos quem dormiu onde, continuamos a acordar todos os anos com as mesmas cheias, os mesmos centros de acolhimento, as mesmas lágrimas e os mesmos discursos. Mudam os rostos, repetem-se os gestos, perpetua-se o ciclo.

É possível ser solidário sem ser populista. É possível ajudar sem transformar a ajuda num acto performativo. É possível liderar sem dormir em tenda. O que não é possível é continuar a fingir que estes gestos resolvem problemas estruturais.

O povo não precisa que durmam com ele. Precisa que governem por ele. E, sobretudo, que governem antes da próxima chuva.

Se este texto soa duro, é porque a realidade é ainda mais. E se incomoda, óptimo. As Crónicas do Absurdo existem exactamente para isso: para rir, sim — mas rindo, castigar os costumes.

Félix Filipe, in Crónicas do Absurdo, 02/02/2026

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