Connect with us

Opinião

O homem que traía a esposa com uma manga verde

blank

Publicado há

aos

blank

Há histórias de amor que acabam em tragédia, outras em comédia. Mas há também aquelas que oscilam entre o riso e a reflexão, mostrando que as pequenas manias humanas podem esconder mundos inteiros. Esta é a história de Simão — um homem simples, trabalhador, mas com um segredo guardado no bolso: uma manga verde e um punhado de sal.

Simão era conhecido no bairro pela sua pontualidade. Saía de casa às sete, voltava às seis, e vestia sempre as mesmas calças de ganga, já um pouco gastas nos joelhos. Júlia, sua esposa, era mulher de casa e de hábitos meticulosos. Tinha por rotina lavar a roupa do marido às quartas e aos domingos, mas havia um par de calças que ele não deixava ela tocar.

Dizia sempre:
— Essas calças estão limpas, Júlia. Deixa estar que lavo no serviço.

No início, ela acreditava. Depois, começou a estranhar. O cheiro que vinha das calças não era propriamente de sabão. E, no entanto, Simão insistia em mantê-las sempre por perto, como se fossem parte da sua pele. Dormia com elas, trabalhava com elas, e parecia inquieto quando Júlia se aproximava demasiado do bolso esquerdo.

Simão tinha uma paixão secreta — uma que não era por outra mulher, mas por algo mais simples e, de certo modo, mais inocente: mangas verdes com sal. Era um gosto antigo, herdado da infância, quando subia às árvores do quintal do tio e se deliciava com o azedo das mangas ainda imaturas. A vida adulta, com os seus horários e responsabilidades, foi-lhe roubando o tempo e o espaço para esses pequenos prazeres.

Até que um dia, levado pela nostalgia, decidiu reviver o velho costume.

O problema era Júlia. Ela, zelosa e preocupada com a saúde do marido, não via com bons olhos o hábito de comer mangas verdes — “fazem mal ao estômago”, dizia. Por isso, Simão escondeu o vício.

Todos os dias, antes de sair para o trabalho, passava pela casa do vizinho João, um homem pacato que tinha no quintal uma frondosa mangueira. Era ali que Simão, num gesto rápido, furtava uma manga verde. No bolso esquerdo, a fruta; no direito, um pouco de sal.

Durante o dia, sempre que Júlia se distraía ou saía da sala, ele retirava discretamente a manga, polvilhava-a com sal e saboreava cada pedaço, sentindo-se por instantes um menino de novo. A manga era a sua amante silenciosa, cúmplice do seu segredo mais doce e mais amargo.

Mas segredos raramente permanecem intactos. O vizinho João começou a notar que as mangas do seu quintal desapareciam misteriosamente. No início pensou que fossem pássaros. Depois, desconfiou dos miúdos do bairro. Passou noites de vigília, escondido atrás da janela, à espera de apanhar o ladrão.

Nada.

É que Simão era astuto. Sabendo que João adormecia de madrugada, fazia as suas incursões às cinco da manhã — a hora em que o vizinho, finalmente vencido pelo sono, se recolhia ao quarto. Assim, a cada dia, mais uma manga desaparecia, e João fervilhava em raiva e frustração.

Numa manhã, farto da situação, o vizinho desatou aos gritos:
— Quem anda a roubar as minhas mangas há de pagar caro! Ladrão sem vergonha!

A voz atravessou o muro e chegou à casa de Simão. Júlia ouviu e sentiu um arrepio. As calças sujas, o cheiro estranho, o bolso sempre cheio… algo não estava certo.

Nessa noite, quando o marido adormeceu, vencido pelo cansaço, Júlia aproximou-se em silêncio. O coração batia-lhe forte. Quis saber, de uma vez por todas, o que escondiam aqueles bolsos proibidos.

Primeiro, meteu a mão no bolso direito: sentiu grãos de sal, grossos e húmidos. Depois, no esquerdo: os dedos tocaram numa manga mordida, fria, já meio comida. O choque foi instantâneo.

Júlia soltou um grito que acordou o marido de sobressalto. Simão, atarantado, tentou justificar-se, mas as palavras tropeçaram-lhe na língua. Júlia, ofendida, correu até à casa do vizinho João e revelou tudo:
— O ladrão das suas mangas é o meu marido, senhor João!

O vizinho ficou pasmado, entre a raiva e o riso. Afinal, o ladrão não era um miúdo travesso, mas um homem feito, com aliança no dedo e calças sempre sujas de sal.

No dia seguinte, o bairro inteiro já sabia da história. Uns riam, outros comentavam baixinho, outros ainda elogiavam a devoção quase poética de Simão por uma simples manga verde. Júlia, passada a fúria, acabou por o perdoar — talvez por perceber que aquela “traição” não era feita de paixão carnal, mas de saudade.

 Simão, envergonhado, prometeu nunca mais tocar nas mangas do vizinho. João, homem de bom coração, respondeu-lhe com humor:
— Quando quiser, venha buscar. Mas bata primeiro à porta, que eu ofereço o sal.

Desde então, Simão nunca mais precisou de esconder o seu gosto. Júlia passou a preparar-lhe mangas verdes cortadas e temperadas com sal, servidas num prato, como se fossem um símbolo de reconciliação. E ele, ao prová-las, descobriu que o prazer do segredo perde o encanto quando comparado à doçura da partilha.

No fundo, a história de Simão ensina-nos algo sobre a natureza humana: todos temos pequenas manias, desejos escondidos ou nostalgias que insistem em acompanhar-nos. O erro não está em sentir, mas em esconder tanto que o simples se transforma em mistério.

Porque, no fim das contas, a traição de Simão não foi contra a esposa, nem contra o vizinho — foi contra a sua própria liberdade de ser quem era, de gostar do que gosta. E talvez o amor maduro seja exatamente isso: aceitar que o outro tem os seus bolsos secretos, desde que, um dia, tenha coragem de os abrir.

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *