A oposição ugandesa fez, nestas eleições, algo pouco comum no continente: pegou no rumor, limpou-o do folclore e devolveu-o ao país como prova, dura e verificável. Mesmo com a internet cortada por ordem do Estado, num apagão pensado para transformar a votação num acto sem testemunhas, jovens treinados na gramática da tecnologia contornaram o bloqueio com VPNs e canais improvisados, muitas vezes com o apoio, caro e persistente, da diáspora. E começaram a expor, com rigor quase forense, aquilo que o poder preferia manter no domínio do “diz-se”: centros informais de contagem e de manipulação; expedientes para fabricar vantagens; uma logística paralela montada para produzir resultados antes de os votos se tornarem contáveis. O que antes circulava como suspeita passou a circular como denúncia documentada, fotografada, com marca temporal. A fraude, confrontada com a sua própria imagem, perdeu a confortável invisibilidade de que dependia.
Ao mesmo tempo, ficou registado o outro braço do método: a desarticulação da oposição por via do rapto, da detenção sem rosto, do susto metódico. Antes do dia do voto, organizações de direitos humanos já descreviam uma campanha de repressão, com detenções arbitrárias, uso excessivo da força e maus-tratos. Depois, com as urnas fechadas e a tensão a subir, o país viu multiplicarem-se relatos de operações destinadas a quebrar cadeias de comando: apanhar dirigentes intermédios no ponto mais crítico, isolá-los em locais “especiais”, baralhar ordens, semear desorientação. O alvo máximo, quando convém, é o próprio líder: não um desaparecimento limpo, mas um sequestro breve, negado, usado como instrumento de desgaste psicológico. A lógica é antiga; a eficácia, infelizmente, mantém-se. Desorganiza-se pela ausência repentina, pela incerteza, pelo medo que paralisa quem fica.
E, no centro institucional deste teatro, está o rosto que devia ser neutro. O presidente da Comissão Eleitoral, Justice Simon Mugenyi Byabakama, traz a credencial clássica do Estado jurídico ugandês: licenciatura em Direito na Makerere University; diploma de Prática Jurídica no Law Development Centre, em Kampala. O problema não é o currículo; é o tom, tantas vezes defensivo, de quem solicita adesão antes de repor confiança, de quem admite “falhas” e promete “mecanismos” futuros, como se a arquitectura de amanhã pudesse validar a ruína de hoje. Observadores e actores regionais criticaram o corte da internet, precisamente porque a transparência, quando se apaga a rede, fica reduzida a boatos e a coragem individual. A missão conjunta da União Africana, COMESA e IGAD, dirigida por Goodluck Jonathan, existe como lembrete de que o continente também sabe ver, quando quer ver. Mas saber ver e agir sobre o que se vê continuam a ser exercícios diferentes.
Museveni, entretanto, precisa de eleições para se reconhecer na imagem que cultiva de si mesmo: o estadista africano, o “visionário” africanista com inclinações ideológicas de esquerda, capaz de falar com frases longas e um sentido denso de história. Há nele, por vezes, uma eloquência que convence; uma memória estratégica que o faz parecer, ao microfone, mais professor do que comandante. É um homem que gosta de citar, de contextualizar, de invocar o passado como prova de competência. Mas há a face que a retórica tenta disfarçar: a face autoritária, prática, nervosa, que prefere o medo ao argumento. E, quando a eloquência já não chega, resta sempre a tropa.
Um instantâneo desse nervo apareceu no trabalho de Yousra Elbagir, da Sky News: ao filmar a repressão em Kampala, ela e a sua equipa foram forçadas a ajoelhar, temporariamente detidas e tratadas como intrusas por soldados armados. Acabaram libertadas quando um comandante superior devolveu as câmaras, mas a mensagem ficou escrita no asfalto. Não era apenas “controlo da rua”; era a pedagogia do susto, feita para jornalistas e para manifestantes, no mesmo gesto. A câmara, afinal, continua a ser uma arma que o poder teme mais do que admite.
Há ainda um traço do método que merece ser nomeado, porque condensa a intimidação num só quadro, quase teatral: grupos de homens em negro, de camisola escura, rosto tapado, por vezes com capacete, botas e uma disciplina de quartel, materializam-se do nada e começam a bater. Não batem para dispersar; batem para ensinar. A ferocidade é tão ostensiva, tão sem pudor, que até a polícia local, em certos momentos, parece recuar, como quem reconhece ali uma hierarquia paralela e mais temida. E há agentes que chegam a verbalizar o espanto, dizendo não saber de onde vieram aqueles homens, como se o próprio Estado, para preservar a aparência, se fingisse surpreendido com o instrumento que usa.
Mas nada, neste tipo de dispositivo, é espontâneo. Essas unidades não surgem por geração súbita; surgem por convocação. Vêm, com frequência, dos vários aparelhos e instituições que fazem a mão pesada do regime, treinadas para reprimir a oposição com a eficácia que a lei não permite e com a impunidade que o medo assegura. O anonimato da máscara não é apenas protecção; é método. Apaga o rosto para que o espancamento pareça um acidente da rua, quando é, na verdade, uma técnica de governo.
E aqui entra um detalhe tristemente moderno: a violência, muitas vezes, não é exercida por quem conhece o bairro, nem por quem partilha a língua e os laços; é entregue a unidades móveis, destacadas para zonas onde não têm parentes, nem amizades, nem vergonha local. O cálculo é simples e cruel: quem não tem nome na rua bate com menos hesitação. A responsabilidade aqui não é étnica; é da cadeia de comando, da impunidade e do desenho deliberado de um aparelho que pune sem prestar contas. Não se trata de apontar origens; trata-se de reconhecer uma técnica de controlo afinada ao longo de décadas.
O resultado é um contraste quase obsceno: um octogenário, que se apresenta como guardião de ganhos históricos, a esmagar, por via de bastões e detenções, jovens que eram bebés quando ele já reinava havia décadas. Há algo de particularmente violento nesta aritmética geracional: o homem que deveria estar a preparar a transição está, em vez disso, a criminalizar quem ousa imaginar que essa transição seja possível. Por isso a repressão ugandesa dói de um modo particular: não é só violência; é a tentativa de interditar o futuro, como se a idade do poder pudesse ser usada para disciplinar a idade do país. Sousa Jamba

