A guerra que assola a província de Cabo Delgado desde 2017 continua a fazer vítimas, a destruir comunidades e a empurrar milhões de moçambicanos para uma crise humanitária profunda — mas permanece, em grande medida, fora do radar internacional. O alerta foi lançado pelo Arcebispo de Nampula, Dom Inácio Saure, durante uma intervenção no Parlamento Europeu, onde descreveu o conflito como uma “guerra sangrenta no silêncio” e apelou à consciência da comunidade internacional.
Falando em nome da Conferência Episcopal de Moçambique, o prelado agradeceu a atenção da Hungria e dos eurodeputados, mas sublinhou que o sofrimento vivido no norte do país continua largamente ignorado. Segundo explicou, embora a violência seja frequentemente apresentada como perseguição religiosa, a realidade é mais complexa, envolvendo interesses económicos ligados à exploração de recursos naturais, aliados à exclusão social e à pobreza que alimentam o recrutamento de jovens para grupos armados.
Dom Inácio Saure foi categórico ao afirmar que o conflito não terminou, apesar da aparente normalidade em algumas vilas. “A guerra apenas mudou de forma”, disse, explicando que enquanto os centros urbanos aparentam alguma estabilidade, as zonas rurais continuam a ser palco de ataques violentos, mortes e destruição. Dados apresentados indicam que o conflito já provocou mais de seis mil mortos e milhões de deslocados internos, muitos dos quais vivem hoje em condições precárias.
O impacto da violência já não se limita a Cabo Delgado. A província de Nampula começa também a sentir os efeitos da expansão dos ataques, numa estratégia dos insurgentes para dispersar as forças governamentais. O arcebispo recordou, como exemplo, o ataque ocorrido em 2022 no distrito de Chipene, onde foi assassinada a missionária italiana Maria De Coppi.
Entre os atacantes, explicou, encontram-se jovens moçambicanos recrutados em contextos de pobreza e marginalização, aliados a combatentes estrangeiros mais experientes. Do outro lado estão as populações civis, sobretudo mulheres e crianças, que representam cerca de 80% dos deslocados. Muitos destes vivem fora dos centros oficiais, acolhidos por famílias já vulneráveis, o que está a esgotar os recursos das comunidades anfitriãs.
A crise humanitária agrava-se com a sobrelotação, a falta de saneamento e a ausência de serviços básicos. Em Nampula, os surtos de cólera tornaram-se frequentes, associados às condições precárias de vida. Ao mesmo tempo, milhares de crianças permanecem fora do sistema de ensino, sem documentos e sem acesso à escola, o que, segundo o arcebispo, as torna particularmente vulneráveis ao recrutamento por grupos armados. “Estamos a perder uma geração inteira”, alertou.
Num dos momentos mais críticos da sua intervenção, Dom Inácio afirmou que, em muitas zonas afectadas pelo conflito, a Igreja Católica tem assumido um papel que deveria caber ao Estado. Segundo disse, quando as instituições públicas e algumas organizações humanitárias se retiram por razões de segurança, as paróquias permanecem no terreno, prestando apoio psicossocial às vítimas, distribuindo ajuda e promovendo o diálogo inter-religioso para evitar que o conflito assuma contornos de guerra religiosa.
Perante o Parlamento Europeu, o arcebispo defendeu uma resposta internacional mais abrangente e coordenada. Apontou a necessidade de reforçar a ajuda humanitária, mas também de garantir maior transparência na sua gestão, pressionando o Governo moçambicano a enfrentar as causas profundas do conflito, como a pobreza, a exclusão e a corrupção. Defendeu ainda que o apoio militar deve privilegiar a formação em direitos humanos e protecção de civis, e não apenas o fornecimento de meios bélicos.
Outro ponto central da sua intervenção foi o papel das multinacionais que exploram gás e recursos minerais em Cabo Delgado e Nampula. Dom Inácio defendeu que estas empresas devem ser responsabilizadas e obrigadas a contribuir para o desenvolvimento local, nomeadamente através da criação de emprego e da formação de jovens.
Na parte final do discurso, deixou uma mensagem clara à comunidade internacional: a solução para o conflito não será alcançada apenas com armas. “O apoio militar pode ganhar batalhas, mas só a educação e o emprego vencerão a guerra contra o extremismo”, afirmou, apelando a investimentos estruturais que ofereçam alternativas aos jovens moçambicanos.
A intervenção de Dom Inácio Saure trouxe para o centro do debate europeu uma crise que continua a ser vivida diariamente por milhares de moçambicanos. Uma guerra que, como o próprio descreveu, continua a matar — em silêncio. Agostinho Miguel

