A construção de uma ponte sobre o rio Larde foi prometida há mais de dez anos e voltou a ser anunciada pelo Governo em 2020, com início das obras previsto para 2021. Cinco anos depois, a infra-estrutura continua por erguer e milhares de pessoas dependem diariamente de pequenas embarcações para atravessar o rio, num percurso que, segundo moradores, já provocou acidentes e continua a dificultar o acesso à saúde, à agricultura e aos serviços públicos.
Todos os dias, dezenas de moradores do distrito de Larde enfrentam o mesmo desafio: atravessar o rio que separa a vila-sede do posto administrativo de Topuito, recorrendo a pequenas embarcações que, segundo a população, nem sempre oferecem condições de segurança.
A ponte prometida há mais de uma década continua por construir. Em Novembro de 2020, o então governador da província de Nampula, Manuel Rodrigues, anunciou que o estudo de viabilidade da obra estava concluído e que decorriam esforços para mobilização de financiamento. Na ocasião, foi divulgado que a construção arrancaria no primeiro trimestre de 2021, com um investimento estimado em cerca de 7,8 milhões de dólares norte-americanos.
Cinco anos depois desse anúncio, a obra permanece por iniciar. Sem alternativa, milhares de residentes continuam dependentes da travessia fluvial para aceder à vila de Larde, onde se concentram serviços administrativos, unidades sanitárias, estabelecimentos de ensino e o principal mercado do distrito.
“Quando perguntamos, dizem-nos que o dinheiro está com o Governo. Mas quem continua a sofrer somos nós, que precisamos atravessar todos os dias entre Topuito e Larde”, afirmou ao NGANI o morador Juma Enhipo.
Segundo o residente, o rio já foi palco de diversos acidentes ao longo dos anos. “Já houve acidentes. Um trabalhador perdeu a vida, uma arma pertencente a um agente da Polícia caiu ao rio e foi necessária uma equipa de mergulhadores para a recuperar”, relatou.
Juma Enhipo afirma que as mulheres grávidas estão entre as pessoas mais afectadas. “Há mulheres que seguem para o hospital e acabam por enfrentar grandes dificuldades na travessia. Algumas chegam mesmo a entrar em trabalho de parto durante a viagem”, contou.
Agricultura condicionada pela travessia
Além do impacto no acesso aos serviços públicos, a inexistência da ponte afecta directamente a actividade agrícola.Grande parte das machambas utilizadas pelas famílias localiza-se na margem oposta do rio, obrigando os produtores a dependerem diariamente do transporte fluvial.
Mariamo Chande afirma que, muitas vezes, os agricultores são obrigados a esperar longos períodos até conseguirem atravessar. “Queremos sair cedo para trabalhar nas machambas, mas dependemos dos transportadores. Muitas vezes dão prioridade aos trabalhadores da empresa e só depois transportam os restantes passageiros”, explicou.
Segundo a moradora, ao longo dos anos a população ouviu diferentes justificações para o atraso da obra.”Umas vezes dizem que o problema é do Governo, outras vezes dizem que é da empresa Kenmare. Nós só queremos que as duas partes encontrem uma solução”, afirmou.
Um compromisso que continua por cumprir
A discussão em torno da ponte remonta ao início da exploração mineira no Monte Felipe.
Segundo Jamilo Ticane, oficial de Advocacia e Lobby da Solidariedade Moçambique, durante as negociações entre a comunidade, o Governo e a empresa Kenmare Resources, a construção da ponte e de uma torre de sinalização para pescadores foi apresentada como uma das principais reivindicações comunitárias para viabilizar o projecto mineiro.
Segundo o responsável, passados vários anos, nenhuma das duas infra-estruturas foi concluída. “Já passaram mais de oito anos e essas obras continuam por realizar”, afirmou.
Jamilo Ticane acrescenta que, segundo informações de que dispõe, o financiamento da ponte seria partilhado entre o Estado e a empresa mineira. NGANI não conseguiu confirmar documentalmente os termos desse eventual compromisso.
Uma ambulância obrigada a percorrer 200 quilómetros
Para Jamilo Ticane, um dos impactos mais graves da ausência da ponte verifica-se no acesso aos cuidados de saúde. Segundo explicou, embora Larde e Topuito estejam separados por poucos quilómetros em linha directa, uma ambulância é obrigada a percorrer cerca de 200 quilómetros por via terrestre para contornar o rio quando não é possível efectuar a travessia.
“Há cerca de um mês vi uma ambulância sair de Topuito para Larde com um doente grave. Um percurso que poderia demorar poucos minutos transformou-se numa viagem longa, com riscos para o paciente”, relatou.
A promessa permanece no papel
Em Novembro de 2020, o então governador Manuel Rodrigues anunciou publicamente que a obra custaria cerca de 7,8 milhões de dólares norte-americanos e que a construção teria início no primeiro trimestre de 2021, após a mobilização dos recursos financeiros.
Segundo a informação divulgada na altura, o financiamento seria assegurado através de uma parceria envolvendo o Estado, a comunidade e a empresa Kenmare.
Até ao momento, porém, a ponte continua por construir e, segundo os moradores ouvidos pelo NGANI, desde o anúncio de 2020 não foram prestadas novas informações públicas sobre o ponto de situação do projecto.
Governo e empresa ainda sem resposta
O NGANI solicitou esclarecimentos ao Governo Distrital de Larde e à Kenmare Resources sobre o estado actual do projecto, os mecanismos de financiamento anunciados e as razões para o atraso na construção da ponte.Até ao fecho desta edição, não foi possível obter uma posição oficial das entidades contactadas.
O jornal mantém o espaço aberto para publicar integralmente os esclarecimentos que venham a ser prestados. Moniro Abdala

