A maternidade do Hospital Central de Nampula (HCN) apresenta hoje uma nova imagem, após obras de reabilitação que melhoraram as condições de acolhimento, higiene e assistência às parturientes. No entanto, por detrás das paredes renovadas, persistem problemas estruturais que continuam a comprometer a qualidade dos serviços.
A intervenção permitiu aumentar a capacidade de internamento de 23 para 32 camas, introduzir oxigénio em vários leitos, climatizar as salas e ampliar as casas de banho, num esforço de humanização dos cuidados. Segundo o director da maternidade, Dinis Manuel Viegas, as melhorias já se reflectem no desempenho da unidade, que passou a realizar cerca de 32 partos por dia, contra 15 a 20 antes da reabilitação.
Apesar dos avanços, a unidade continua sob forte pressão. De acordo com o responsável, a maternidade mantém-se sobrecarregada, recebendo partos normais que deveriam ser atendidos em centros de saúde e hospitais distritais, o que desvirtua o seu papel de unidade de referência para casos complexos.
No plano clínico, os dados indicam uma redução significativa da mortalidade materna, que caiu de 153 óbitos em 2023 para 82 em 2025. Ainda assim, persistem complicações graves, como roturas uterinas, frequentemente associadas ao acesso tardio aos serviços de saúde e à limitada capacidade cirúrgica nas unidades periféricas, sobretudo em distritos mais remotos.
Entretanto, problemas internos continuam a ensombrar o funcionamento da maternidade. O representante do Gabinete do Utente no HCN, Hermínio Cilema, confirmou a suspensão de cinco parteiras por envolvimento em cobranças ilícitas a parturientes, sendo que algumas foram afastadas definitivamente.
Cilema defende que a denúncia por parte dos utentes é crucial para travar estas práticas, ao mesmo tempo que alerta para a persistente escassez de materiais essenciais, como medicamentos, luvas e seringas — uma realidade que continua a afectar a qualidade do atendimento.
Entre as utentes, o sentimento é misto: satisfação pelas novas condições físicas, mas exigência por um atendimento mais digno. “É uma nova casa que se exige também bom atendimento por parte das parteiras”, afirmou uma parturiente, resumindo o contraste entre a modernização das infra-estruturas e os desafios ainda por resolver.
Apesar da reabilitação, a maternidade do HCN continua a reflectir as fragilidades do sistema de saúde, onde melhorias visíveis nem sempre significam mudanças profundas na prestação de cuidados. Redacção

