Líder do AMUSI critica proposta de unificação das eleições, defende reforma da CNE e acusa a Frelimo de fragilizar a democracia
O presidente do partido Acção do Movimento Unido para a Salvação Integral (AMUSI), Mário Albino, reapareceu no espaço público após um período de silêncio para lançar duras críticas ao actual cenário político nacional, acusando a Frelimo de enfraquecer as instituições democráticas e de comprometer o futuro do país.
Em entrevista exclusiva ao NGANI, o antigo candidato presidencial apontou como uma das suas principais preocupações a proposta da Comissão Nacional de Eleições (CNE) de realizar, em simultâneo, as eleições autárquicas de 2028 e as eleições gerais de 2029. Para Albino, a iniciativa representa um sério risco para a transparência do processo eleitoral.
“Quando se fala da realização de quatro eleições num único dia, estamos perante uma tentativa clara de enterrar a democracia. A democracia tem regras, princípios e exige organização e transparência.”
Segundo o líder do AMUSI, concentrar diferentes processos eleitorais poderá aumentar o risco de irregularidades e agravar as tensões políticas no período pós-eleitoral.
“O objectivo é manter as manobras que têm marcado os processos eleitorais. Isso só vai gerar mais conflitos depois das eleições.”
“A CNE precisa de uma reforma profunda”
Durante a entrevista, Albino defendeu mudanças estruturais na Comissão Nacional de Eleições, alegando que o órgão perdeu credibilidade junto dos cidadãos.
“A Comissão Nacional de Eleições precisa de ser reformada. As pessoas que lá estão já não têm a confiança do povo. São elas que alimentam os problemas que travam o desenvolvimento do país.”
O político defende uma composição mais inclusiva da CNE, permitindo a participação de partidos com e sem representação parlamentar, como forma de reforçar a imparcialidade e a transparência do processo eleitoral.
“Estamos a falar de uma instituição que deve servir todos os partidos. É preciso garantir equilíbrio e inclusão.”
Albino acusou ainda o sistema eleitoral de favorecer determinadas forças políticas e de limitar o crescimento de outras formações.
“Os resultados são muitas vezes decididos fora das urnas. Há partidos que são impedidos de crescer porque representam uma ameaça ao sistema instalado.”
“Misturar eleições abre espaço para fraude”
Questionado sobre a proposta de unificação dos pleitos, o presidente do AMUSI reiterou que a medida não encontra fundamento democrático.
“Não se trata de falta de condições técnicas. Trata-se de respeitar as regras da democracia. As eleições autárquicas devem realizar-se separadamente. Misturar tudo num único processo é abrir espaço para fraude.”
Albino criticou igualmente alterações introduzidas na legislação eleitoral, nomeadamente o sistema de listas partidárias, que, na sua opinião, reduz a capacidade de escolha directa dos eleitores.
“Retiraram a possibilidade de escolha directa e passaram a impor candidatos através de listas. Isso enfraquece a democracia e concentra o poder nos partidos.”
Manifestou também reservas quanto à proposta de criminalização da proclamação antecipada de vitória por partidos ou candidatos antes da divulgação oficial dos resultados.
“Como é possível impedir alguém de dizer que venceu? Isso retira uma ferramenta importante de fiscalização. Parece que querem silenciar qualquer contestação.”
Acusações de captura do Estado
Ao longo da entrevista, Albino acusou a Frelimo de utilizar recursos públicos para reforçar o seu controlo político e de favorecer partidos sem expressão eleitoral.
“Há partidos sem representação real que recebem fundos do Estado. Isso levanta sérias dúvidas sobre a gestão dos recursos públicos.”
Na sua perspectiva, esses recursos deveriam ser canalizados para áreas prioritárias como saúde, educação e criação de emprego.
“Estamos a falar de milhões de meticais que podiam comprar medicamentos, pagar professores ou criar oportunidades para os jovens.”
O líder do AMUSI afirmou ainda existir um ambiente de crescente intolerância política.
“Hoje há uma tentativa de silenciar vozes críticas e de transformar a política num espaço fechado. Isso é perigoso para qualquer democracia.”
“Moçambique tem recursos, falta liderança”
Na componente económica, Mário Albino defendeu que o país dispõe de recursos suficientes para assegurar melhores condições de vida à população, desde que sejam geridos de forma eficiente.
“Este país não precisa de viver de empréstimos. Temos recursos minerais, marinhos, florestais e humanos suficientes para garantir uma vida digna para todos.”
O político apontou o gás natural, o carvão, os minerais preciosos e os recursos pesqueiros como bases para uma estratégia de desenvolvimento sustentável, defendendo uma maior aposta na industrialização.
“Não podemos continuar a exportar matéria-prima. Precisamos transformá-la cá dentro, criar fábricas, gerar emprego e fortalecer a economia nacional.”
Críticas às desigualdades
Albino denunciou igualmente aquilo que considera serem práticas de exclusão regional e social, alertando para o impacto dessas desigualdades na estabilidade do país.
“Todos somos moçambicanos. Não pode haver regiões privilegiadas e outras marginalizadas. Isso cria tensões e impede o progresso.”
Referiu também alegadas dificuldades enfrentadas pelo AMUSI nos processos eleitorais, incluindo o que classificou como tratamento discriminatório na organização dos boletins de voto.
“Fomos colocados em posições desfavoráveis nos boletins de voto. Isso não é coincidência, é estratégia.”
Apesar do período de menor exposição pública, Mário Albino garante que o partido continua activo em várias províncias, desenvolvendo acções de mobilização comunitária, educação cívica e formação política.
Segundo explicou, o objectivo passa por fortalecer a participação dos cidadãos e preparar uma nova geração de dirigentes.
Agostinho Miguel

