escritor e oficial da Polícia da República de Moçambique (PRM), Orlando Fernando Mussoi, lançou no último sábado (15), na cidade de Nampula, duas obras literárias que recuperam memórias da tradição africana e questionam preconceitos sociais.
Os livros, intitulados “Contos do Embondeiro, Vozes que o Tempo Não Cala” e “Marieta, a Mulher de Saia Curta”, resultam, segundo o autor, de experiências pessoais e histórias recolhidas ao longo da sua vida.
Da fogueira para o papel
Mussoi explica que “Contos do Embondeiro, Vozes que o Tempo Não Cala” nasceu das histórias que ouvia da avó junto à fogueira, numa época em que a transmissão oral era uma das principais formas de preservar conhecimentos e valores entre gerações. “Teve a sua génese a partir de contos e histórias que eu escutava ao relento, à beira da fogueira, que outrora a minha avó contava”, explicou.
Para o escritor, recuperar essas narrativas é também uma forma de preservar uma memória cultural que corre o risco de desaparecer com o passar das gerações.
Mulher no centro dos preconceitos
Já “Marieta, a Mulher de Saia Curta” aborda a condição da mulher e os julgamentos sociais baseados na aparência, comportamento ou escolhas pessoais.
Mussoi considera que a obra procura desafiar a tendência de formar opiniões sobre alguém sem conhecer a sua história. “‘A Mulher de Saia Curta’ é um romance africano que me deu a oportunidade de viajar ao tempo. Muitas vezes vê-se a mulher como um ser frágil e criam-se ilações em prol disso”, afirmou.
Segundo o autor, o livro pretende incentivar o leitor a questionar preconceitos e a conhecer melhor as pessoas antes de formular julgamentos. “É uma oportunidade para quebrar alguns preconceitos e alguns julgamentos sem antes conhecermos o essencial ou conhecermos a pessoa”, acrescentou.
Três anos de escrita
A produção das duas obras levou cerca de três anos. Durante esse período, Mussoi conta que reviu e reescreveu vários textos até encontrar a abordagem que considerava adequada para cada livro. “Levei praticamente três anos a escrever. Havia alguns contextos e textos que já tinha escrito, mas achava que não se enquadravam. Então, isso fez com que reescrevesse estas obras”, explicou.

O escritor espera que os livros contribuam para estimular debates sobre a sociedade e inspirem outros jovens a entrar no mundo da literatura. “Espero que essas obras desencadeiem muitos debates. Podem trazer novos escritores e podem limar aquele nosso preconceito de julgar sem antes conhecermos a pessoa”, sublinhou.
Polícia também escreve
A publicação das obras representa igualmente, para Mussoi, uma forma de contrariar a percepção de que os agentes da PRM estão afastados da literatura e de outras actividades intelectuais.
O oficial, afecto ao Comando Provincial da PRM em Nampula, considera que a sua experiência demonstra que a corporação também reúne profissionais ligados à leitura, escrita e produção de conhecimento.
“Já percebi que a sociedade tem julgado a polícia no âmbito de que não são indivíduos letrados. Mas eu fiz o contrário, vim mesmo para provar que ainda existem, no seio da corporação, indivíduos que são letrados, estudados, esclarecidos”, afirmou.
“É preciso ter vontade de transmitir uma mensagem”
Durante a apresentação das obras, Mussoi deixou uma mensagem aos jovens interessados pela literatura.
Para o escritor, o primeiro passo não é dominar todas as técnicas de escrita, mas ter algo a comunicar e vontade de partilhar uma mensagem.“Não é preciso saber escrever coisas bonitas, mas é preciso ter vontade de querer transmitir alguma informação, alguma mensagem, que estamos cá para receber de bom grado”, apelou.
Com as duas obras, Mussoi procura colocar no papel histórias e reflexões que atravessam a memória cultural africana e os desafios sociais contemporâneos, ao mesmo tempo que incentiva uma nova geração a descobrir na literatura um espaço de expressão e questionamento. Agostinho Miguel
