Capulanas não governam!

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Quando o país acordou com o anúncio de que o Gabinete da Primeira-Dama vai oferecer capulanas a todas as mulheres moçambicanas por ocasião do 7 de Abril, muitos pensaram tratar-se de mais uma daquelas promessas simbólicas que ficam pelo discurso. Mas não. A própria Gueta Chapo garantiu, na Beira, que nenhuma mulher ficará de fora. Nenhuma.

É aqui onde começa o nosso exercício matemático, e também o nosso espanto. Segundo dados do IV Censo Geral da População e Habitação de 2017, divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística, Moçambique tinha 14.561.352 mulheres. As projecções indicam que, até ao final de 2025, o número poderia rondar os 17,5 milhões.

Portanto, quando se diz “todas as mulheres”, estamos a falar de milhões. Milhões de capulanas, se quisermos ser precisos 17,5 milhões de capulanas e um pouquinho mais. Milhões de peças de tecido. Milhões de metros de pano. Milhões de deslocações logísticas. Milhões de decisões administrativas. Milhões de oportunidades para desorganização, ou para fotografia.

A pergunta que não quer calar é simples: será este o papel de uma Primeira-Dama?

Comecemos pelo básico. Uma Primeira-Dama não é um ministério. Não é uma agência de assistência social. Não é uma distribuidora têxtil. Não é um braço logístico do Estado. O seu papel, num Estado moderno, deveria ser de influência estratégica, mobilização social, advocacia por causas estruturantes — saúde materna, educação das raparigas, combate à violência baseada no género, empreendedorismo feminino sustentável.

Capulanas? A capulana é símbolo cultural. É identidade. É tradição. É elegância. Mas não é política pública. Quando um país com índices elevados de pobreza, com maternidades sem condições, com mulheres a morrerem no parto, com raparigas a abandonarem a escola por falta de absorventes ou pensos, com mulheres rurais sem acesso a crédito, é mobilizado para distribuir tecido comemorativo, alguma coisa está desalinhada.

Não se trata de desprezar a capulana. Trata-se de questionar prioridades. Se considerarmos a estimativa de 17,5 milhões de mulheres e assumirmos, por hipótese conservadora, que cada capulana custe apenas 200 meticais — estamos a falar de 3,5 mil milhões de meticais. Se custar 300 meticais, o valor sobe para mais de 5 mil milhões.

Mesmo que o custo unitário seja menor, a escala transforma a oferta numa operação de proporções orçamentais. Quem financia? O Gabinete da Primeira-Dama tem essa dotação? Haverá parceiros? Haverá doadores? Haverá concurso público? Haverá transparência?

E mais: como será feita a distribuição? A capulana sairá de Maputo em camiões? Chegará de barco? Irá de comboio? De avião? Como atravessará os troços esburacados da EN1? Como chegará à última localidade de Nipepe, Machaze, Mapai, Tambara, Macomia, Lalaua, Matuitine ou Pambara? Haverá listas nominais? Haverá cartão de eleitor? Haverá controlo administrativo? Haverá registo biométrico? Ou bastará ser mulher? Se bastar ser mulher, como se define? Pela idade? Incluem-se bebés? Incluem-se idosas acamadas? Incluem-se mulheres privadas de liberdade? Incluem-se mulheres na diáspora?

O anúncio abre mais perguntas do que respostas. E há ainda o simbolismo político. Quando se promete algo “para todas”, a promessa deixa de ser celebração e passa a ser performance. A política do gesto totalizante tem uma longa tradição populista: distribuir camisetas, bonés, capulanas, cestas básicas, promessas. A curto prazo, rende aplauso. A médio prazo, evapora-se.

O 7 de Abril é o Dia da Mulher Moçambicana. Uma data histórica, que evoca luta, resistência, participação activa na construção do país. Reduzi-lo a uma distribuição massiva de tecido é empobrecer o significado. A mulher moçambicana não precisa apenas de capulana. Precisa de maternidades equipadas. Precisa de segurança. Precisa de crédito agrícola. Precisa de escolas seguras. Precisa de tribunais que funcionem. Precisa de políticas públicas coerentes.

Mas, aparentemente, estamos a oferecer pano. O mais curioso é que esta não é a primeira vez que a Primeira-Dama protagoniza gestos de grande visibilidade. Recordamo-nos quando decidiu dormir num centro de reassentamento das vítimas das cheias. O gesto foi amplamente divulgado. Houve fotografias. Houve manchetes. Houve emoção.

Mas o que mudou estruturalmente após aquela noite? Os centros de reassentamento tornaram-se modelos de planeamento urbano? As famílias deixaram de depender de ajuda humanitária? As casas passaram a ter qualidade construtiva? Ou ficou apenas a imagem da Primeira-Dama solidária, debaixo de um tecto provisório?

Depois daquela solidariedade performativa, agora temos a versão têxtil da solidariedade. É preciso dizer, com todas as letras: caridade simbólica não substitui política pública. Uma Primeira-Dama pode — e deve — usar a sua influência para mobilizar debates sérios. Pode pressionar por orçamento para casas-abrigo para mulheres vítimas de violência. Pode defender a institucionalização de programas de literacia financeira feminina. Pode articular com o sector privado para criar linhas de microcrédito sustentáveis. Pode apoiar reformas legais que fortaleçam os direitos das mulheres.

Distribuir capulanas pode até ser simpático. Mas não é transformador. E há um risco adicional: a banalização da função. Quando a agenda da Primeira-Dama se resume a inaugurações figurativas, visitas protocolares e distribuição de bens materiais, a sociedade começa a perguntar: qual é exactamente o seu mandato? Qual é o impacto mensurável do seu gabinete? Quais são os indicadores de sucesso?

Num país onde cada metical público deveria ser escrutinado, iniciativas de grande escala precisam de transparência absoluta. Imaginemos a operação: milhões de capulanas embaladas, etiquetadas, transportadas, distribuídas. Quem supervisiona? Quem fiscaliza? Quem garante que não haverá desvio? Quem impede que algumas desapareçam antes de chegar ao destino? Quem assegura que não serão usadas como instrumento político local?

Porque, sejamos francos, quando se distribui algo em massa, há sempre o risco de capitalização política. O gesto pode ser lido como celebração cultural. Mas também pode ser lido como campanha antecipada.

E há ainda o paradoxo social. Em muitas comunidades, as mulheres organizam-se em associações para produzir capulanas, tecidos, artesanato. Ao invés de estimular cadeias produtivas locais com contratos transparentes e apoio técnico, estaremos apenas a importar milhões de metros de tecido industrial? Se a intenção fosse estrutural, poder-se-ia lançar um programa nacional de apoio às mulheres produtoras têxteis. Poder-se-ia criar cooperativas. Poder-se-ia estimular a indústria local. Poder-se-ia gerar emprego.

Mas isso exige planeamento. Exige estratégia. Exige visão. Oferecer capulanas exige apenas discurso. Outra pergunta que deixamos, com ironia, mas também com preocupação, é esta: depois das capulanas, o que virá? Fatos-macaco para o Dia do Trabalhador? Lençóis brancos para o Dia da Paz? Guardanapos para o Dia da Juventude?

Gueta Chapo talvez acredite genuinamente que está a fazer algo bonito. E talvez muitas mulheres recebam a capulana com alegria. Mas alegria momentânea não é emancipação.

O país precisa de lideranças femininas que pensem grande. Que pensem políticas de longo prazo. Que desafiem o status quo. Que incomodem estruturas patriarcais. Que cobrem metas de redução de mortalidade materna.

Capulanas não reduzem a taxa de abandono escolar. Capulanas não garantem parto assistido. Capulanas não protegem contra violência doméstica. Capulanas não substituem rendimento estável.

Se o objectivo é homenagear a mulher moçambicana, que tal anunciar um fundo nacional para empreendedorismo feminino rural? Que tal propor uma linha de crédito sem juros para cooperativas de mulheres? Que tal liderar uma campanha nacional contra os casamentos prematuros?

Isso sim seria uma manchete histórica. Enquanto isso, aguardamos o plano logístico para levar milhões de capulanas até ao último recanto do país. Talvez, quando chegarem nos confins desta pátria, alguém pergunte, com a mesma ironia que nós: E agora? O que fazemos com o pano? FélixFilipe@NGANI, Crónicas do Absurdo, 160226

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