O académico e docente universitário Elísio Macamo afirmou, em Nampula, que muitos dos desafios que Moçambique enfrenta resultam menos da escassez de recursos e mais da forma inadequada como os problemas são formulados.
Macamo falava na abertura do ano académico da Universidade Rovuma, onde defendeu que o país vive crises profundas que vão além da dimensão financeira, levantando a necessidade de repensar a forma como se identificam e abordam os problemas nacionais.
“Um país pode falhar não por falta de dinheiro, mas por dificuldades em formular correctamente os seus próprios problemas”, afirmou, sublinhando que várias políticas públicas fracassam por partirem de diagnósticos errados.
Segundo explicou, existem programas que não alcançam os resultados desejados não por falta de meios, mas porque assentam em interpretações limitadas da realidade.
Como exemplo, apontou o programa Sustenta, concebido para combater a fome, mas que, na sua visão, partiu de uma leitura incompleta do problema. Para o académico, o foco nas cadeias de valor agrícolas ignorou um factor central: o desemprego rural.
“Muitas pessoas praticam agricultura de subsistência não por vocação, mas por falta de alternativas”, explicou.
Macamo alertou que a má definição dos problemas pode levar à mobilização de elevados recursos sem impacto significativo, defendendo maior rigor na análise e concepção de políticas públicas.
Outro exemplo destacado foi o da gestão de desastres naturais. Segundo o docente, o excesso de enfoque na disseminação de informação ignora o verdadeiro desafio, que reside na tomada de decisão por parte das populações em risco.
“Muitas pessoas sabem que estão em risco. O problema é decidir quando sair, o que abandonar e como proteger os seus bens”, afirmou, defendendo a criação de incentivos concretos que apoiem essas decisões.
Durante a sua intervenção, o académico destacou ainda o papel das universidades, defendendo que estas devem ir além da formação profissional e assumir-se como espaços de produção de conhecimento e questionamento crítico.
“A universidade não existe apenas para dar respostas. Existe também para questionar e reformular os problemas da sociedade”, sublinhou.
Macamo defendeu igualmente a necessidade de equilibrar inteligência e imaginação, argumentando que, enquanto a inteligência permite resolver problemas, a imaginação é fundamental para questionar se esses problemas estão correctamente definidos.
Na sua análise, Moçambique dispõe de quadros qualificados em diversas áreas, mas enfrenta dificuldades em transformar conhecimento técnico em soluções ajustadas à realidade local.
O docente apontou sectores como arquitetura, saúde e agricultura como exemplos onde, apesar da formação de profissionais, persistem desafios estruturais.
“O problema não é apenas falta de conhecimento técnico, mas dificuldade em adaptá-lo às condições concretas do país”, afirmou.
Para Elísio Macamo, o desenvolvimento sustentável depende da capacidade de questionar pressupostos, reformular problemas e construir soluções ancoradas na realidade moçambicana. Agostinho Miguel

