A Delegação Provincial da Ordem dos Médicos de Moçambique em Nampula distanciou-se das reivindicações da classe numa altura em que aumenta, em todo o país, o descontentamento entre os profissionais de saúde e crescem os sinais de uma possível paralisação dos serviços. O cenário coloca o sector sob pressão, sobretudo nas principais unidades sanitárias.
Nos últimos dias, médicos de várias regiões têm vindo a manifestar insatisfação face às condições de trabalho e à alegada violação dos seus direitos, num movimento que começa a ganhar dimensão nacional e a levantar preocupações quanto à estabilidade do sistema de saúde.
As queixas são recorrentes: falta de condições nos hospitais, dificuldades no exercício da profissão e ausência de respostas concretas por parte das autoridades. O resultado é um ambiente de crescente tensão dentro da classe, que já discute formas de pressão — incluindo a paralisação dos serviços.
Em Nampula, o alerta ganha contornos mais concretos. Informações em circulação indicam a possibilidade de uma greve no Hospital Central de Nampula já a partir do mês de Abril, cenário que, a confirmar-se, poderá comprometer o funcionamento da maior unidade sanitária da região norte e afectar milhares de utentes.
Apesar da gravidade do momento, a Ordem dos Médicos mantém-se numa posição de recuo institucional, alegando não ter recebido qualquer documento formal que sustente as reivindicações dos profissionais.
O delegado provincial da instituição, Tomás Coimbra, foi claro: sem formalização, não há intervenção. “Não recebemos nenhum documento por escrito. Sem isso, não temos como tomar posição ou intervir”, afirmou.
A posição levanta questionamentos sobre o papel da Ordem num contexto em que os sinais de insatisfação são visíveis e crescentes. Ainda assim, a instituição insiste no cumprimento rigoroso dos trâmites formais. “Quando houver um documento oficial, iremos analisar e dar o devido encaminhamento”, acrescentou Coimbra.
As declarações foram feitas à margem da cerimónia de deposição de coroa de flores na Praça dos Heróis Moçambicanos, integrada nas celebrações do Dia do Médico Moçambicano, assinalado a 28 de Março.
A data, que marcou também os 20 anos da Ordem dos Médicos de Moçambique, acabou por ser atravessada por um contraste evidente: enquanto a instituição celebrava o seu percurso, no terreno crescia a tensão dentro da classe.
Num momento que deveria ser de reconhecimento e balanço, o sector da saúde enfrenta um cenário de incerteza, com profissionais cada vez mais pressionados e exigindo mudanças concretas nas suas condições de trabalho.
A ausência de uma posição mais interventiva por parte da Ordem contribui para esse clima de indefinição, numa altura em que aumenta a expectativa em torno dos próximos passos dos médicos. Com o mês de Abril a aproximar-se, a possibilidade de paralisação deixa de ser um cenário distante — e passa a ser uma ameaça real para o funcionamento dos serviços de saúde em Nampula. Agostinho Miguel

