O académico e filósofo Severino Nguenha defendeu a necessidade de aproximar a filosofia da sociedade e promover um diálogo mais profundo entre diferentes gerações, durante a apresentação do seu mais recente livro, Filosofia Africana em Fragmentos: Mukhatchanadas, revisto, ampliado e atravessado.
O evento teve lugar na última sexta-feira (13), no campus de Napipine da Universidade Rovuma, em Nampula, e reuniu docentes, estudantes e amantes do pensamento filosófico.
Na ocasião, Nguenha explicou que a decisão de apresentar a obra fora dos grandes centros culturais foi intencional, defendendo que o pensamento filosófico deve estar próximo das pessoas e das comunidades.
“Mesmo quando o anfiteatro está quase vazio, com três ou quatro pessoas apenas, esse encontro continua a ter valor filosófico. O importante é que os mais velhos comuniquem com a sociedade e partilhem o pensamento com a comunidade”, afirmou.
O filósofo revelou que o livro, vendido ao preço de 900 meticais, foi publicado no final do ano passado. Contudo, a sua apresentação em diferentes espaços pretende romper com a tradição de lançar obras apenas em locais considerados mais visíveis ou prestigiados.

“O conhecimento não deve ficar restrito a lugares elitistas. Precisamos mudar esta prática de lançar livros apenas em grandes centros e procurar espaços onde possamos dialogar directamente com as pessoas”, sublinhou.
Filosofia como instrumento de reflexão
Durante a sua intervenção, Nguenha destacou que a filosofia continua a desempenhar um papel essencial na reflexão sobre os desafios do mundo contemporâneo.
Segundo ele, os filósofos trabalham essencialmente com duas ferramentas fundamentais: a palavra e o pensamento. “Os filósofos não têm muitas coisas. Têm a palavra e o pensamento. É com esses instrumentos que procuramos compreender o mundo e oferecer reflexão, mesmo nos momentos mais difíceis”, afirmou.
O académico recordou ainda que o tempo da filosofia nem sempre coincide com o ritmo acelerado da política, das manifestações ou das revoltas sociais. “O tempo do pensamento é mais longo. Não porque os filósofos não queiram participar nos acontecimentos, mas porque o pensamento exige calma, análise e reflexão antes de responder aos acontecimentos”, explicou.
Nguenha acrescentou que, muitas vezes, a sociedade questiona a ausência dos intelectuais em momentos de crise, mas nem sempre está preparada para ouvir ideias que desafiem as suas próprias convicções.
“Muitas pessoas querem que falemos apenas para confirmar aquilo que pensam. Quando a palavra não coincide com as suas ideias, deixam de querer ouvir”, observou.
Recuperar o diálogo na filosofia
O filósofo recordou ainda que, historicamente, a filosofia nasceu como um exercício de diálogo.
Segundo ele, pensadores como Platão e Aristóteles ensinavam caminhando e conversando com os seus discípulos, numa prática que privilegiava o debate e a troca de ideias. “Durante muito tempo criou-se a ideia de que ser inteligente era escrever de forma difícil. Mas a filosofia precisa voltar a dialogar com as pessoas”, afirmou.
Nguenha acrescentou que novas formas de comunicação, como podcasts e plataformas digitais, têm sido utilizadas para aproximar o pensamento filosófico do público.“O objectivo de um filósofo é comunicar. Podemos ter ideias brilhantes, mas se elas não forem partilhadas, não têm utilidade”, destacou.
Um diálogo entre gerações
A apresentação da obra esteve a cargo do docente universitário Wilson Porfírio Nicaquela, que descreveu o livro como um reencontro com a palavra, a memória e o tempo.

Professores Wilson Porfírio Nicaquela e Severino Ngoenha
Segundo ele, a nova edição representa mais do que uma simples reedição de uma obra marcante do pensamento filosófico moçambicano. “Mais do que uma reedição, esta obra representa um reencontro com o pensamento e com inquietações que continuam presentes na nossa sociedade”, afirmou.
Para Nicaquela, o autor regressa ao livro não necessariamente para corrigi-lo, mas para escutar novamente o que a obra continua a dizer ao presente. “Escutar é diferente de ouvir. Ouvir é um acto natural, mas escutar exige atenção, reflexão e empatia. Esta nova edição nasce precisamente dessa escuta renovada da própria obra”, explicou.
O docente destacou ainda que o livro assume uma dimensão simbólica ao promover um diálogo entre gerações. “Aquilo que era apenas uma promessa de futuro tornou-se realidade. O filho tornou-se leitor e interlocutor do pensamento do pai, transformando esta obra num verdadeiro diálogo entre gerações”, afirmou.
Segundo o apresentador, essa relação simboliza também o encontro entre o legado do passado e os questionamentos do presente na sociedade africana. “Não é um livro para ser simplesmente compreendido, mas para ser atravessado. Cada leitor deve percorrer as suas páginas e dialogar com as ideias que ali se encontram”, concluiu. Agostinho Miguel
