O Hospital Central de Nampula devia ser investigado.Num país onde a falta de meios se tornou desculpa para quase tudo, aquele hospital insiste em produzir resultados. Num sistema de saúde que há décadas sobrevive entre equipamentos obsoletos, escassez de medicamentos, falta de especialistas e recursos insuficientes, há médicos, enfermeiros, anestesistas, técnicos e auxiliares que continuam a fazer aquilo que parecia impossível, que é salvar vidas.
E isso, convenhamos, senhoras e senhores, é um enorme problema. Moçambique atravessa um dos períodos mais difíceis da sua história recente. A pobreza continua a marcar a vida de milhões de cidadãos. O desemprego juvenil destrói sonhos antes mesmo de eles nascerem. A educação luta para cumprir a sua missão, a agricultura continua vulnerável, as infra-estruturas degradam-se, etc. e etc…
As manifestações de 2024 foram um grito colectivo de um país cansado. Para muitos, representavam a possibilidade de um novo começo, de uma governação mais próxima das preocupações reais dos cidadãos e de instituições capazes de recuperar a confiança perdida. Passados dois anos, continua a existir a expectativa de que essas lições se traduzam em mudanças concretas. Mas, as dificuldades que alimentaram aquele descontentamento permanecem presentes e a aumentar.
É neste cenário em que surge o Hospital Central de Nampula para estragar a narrativa. Enquanto o debate público se perde em confrontos políticos, assassinatos dos que pensam diferente, acusações, promessas e divisões, dentro das salas operatórias do HCN trava-se uma batalha muito mais séria. Ali ninguém discute ideologias. Discutem-se hemorragias. Ninguém procura votos. Procura-se manter um coração a bater. Ninguém faz discursos. Fazem-se cirurgias.
Os números ora divulgados pelo próprio hospital ajudam a perceber a dimensão desse esforço. Durante todo o ano de 2025, a cirurgia geral realizou 35 operações para remoção de tumores. Apenas nos primeiros seis meses de 2026 esse número subiu para 75 intervenções. Mais impressionante do que a quantidade é a complexidade dos casos, que são tumores gigantes, alguns com mais de dez, quinze e até vinte quilogramas, retirados por equipas que trabalham muito longe das condições ideais que qualquer cirurgião desejaria encontrar.
Vale a pena parar um instante e lembrar que cada um desses números tem um nome, uma família e uma história. Cada cirurgia representa uma pessoa que voltou para casa, uma mãe que abraçou os filhos, um pai que recuperou a esperança, um jovem que recebeu uma segunda oportunidade. Atrás de cada intervenção há horas de concentração absoluta, decisões tomadas em segundos e profissionais conscientes de que um pequeno erro pode custar uma vida.

É fácil admirar hospitais equipados com a melhor tecnologia do mundo. O difícil é admirar, como merece ser admirado, quem consegue produzir excelência quando quase tudo falta.
E talvez seja aqui onde encontramos a maior ironia deste país. Durante anos repetimos que o Estado falha. Falha na educação. Falha na saúde. Falha na justiça. Falha na criação de oportunidades. A frase tornou-se tão comum que quase perdeu o significado. O HCN devolve-lhe toda a força. Não porque prove que o sistema funciona, mas porque demonstra que existem profissionais que recusam deixar-se contaminar pela mediocridade do sistema.
Mas seria injusto tirar a conclusão errada. Estes resultados não absolvem o sector. Pelo contrário, tornam ainda mais evidente a dimensão das suas fragilidades. Se os médicos conseguem fazer tanto com tão pouco, imagine-se o que poderiam alcançar se trabalhassem com os meios de que realmente necessitam. O sucesso destas cirurgias deve ser celebrado, mas também deve envergonhar quem, durante anos, permitiu que hospitais públicos sobrevivessem muito mais graças ao sacrifício dos seus profissionais do que à solidez das políticas públicas.
É por isso que dizemos que o escândalo se chama Hospital Central de Nampula.
Não porque ali faltem profissionais competentes. Muito pelo contrário. O escândalo é que um grupo de homens e mulheres consiga alcançar resultados extraordinários num contexto em que o normal seria desistir. O escândalo é que continuemos a depender do heroísmo de médicos para garantir aquilo que devia ser apenas rotina num Estado que respeita os seus cidadãos.
A esses profissionais, Moçambique deve muito mais do que aplausos. Deve respeito. Deve melhores condições de trabalho. Deve equipamentos. Deve medicamentos. Deve investimento. Deve reconhecimento. Porque, enquanto muitos perderam a capacidade de acreditar, eles continuam, todos os dias, a entrar numa sala de operações para provar que a esperança ainda pode ser construída com conhecimento, coragem e um bisturi nas mãos. Esse, sim, é o verdadeiro escândalo.
Aos médicos, enfermeiros, anestesistas, técnicos e auxiliares do Hospital Central de Nampula, o Jornal NGANI presta-vos esta homenagem sincera. Não porque façam milagres, mas porque dignificam diariamente essa profissão nobre. Enquanto muitos perderam a esperança num país melhor, vocês continuam a devolvê-la, uma cirurgia após a outra…
O vosso trabalho lembra-nos que a grandeza de uma nação também se mede pelos homens e mulheres anónimos que, no silêncio de uma sala de operações, escolhem servir a vida quando tudo à sua volta parece conspirar contra ela. Se Moçambique ainda tem razões para acreditar no futuro, uma parte dessa esperança veste bata branca e trabalha no Hospital Central de Nampula. Fiquem com o nosso afecto e a nossa paz! EditorialJornalNGANI10072026
