Começa sempre assim: com gente a fugir da própria terra. Em Chitunda, no distrito de Muidumbe, os camponeses abandonam os seus campos agrícolas. Não por preguiça, não por seca, não por falta de vontade, mas por medo, medo real, medo armado, medo de morrer. Supostos terroristas circulam livremente pelas zonas de produção, atravessam trilhos, aproximam-se das machambas, observam, saqueiam, impõem silêncio.
E os camponeses, aqueles que sustentam o país com enxadas nas mãos, fazem o único que podem: fogem. Fogem da colheita, fogem da terra, fogem da vida. Há relatos de insurgentes a cruzarem Ruarua, a poucos quilómetros, há famílias que deixaram tudo para trás, há quem já aceite que não vai colher o que plantou. O medo venceu a fome. E quando o medo vence a fome, é porque o país já perdeu quase tudo.
Desde 2017, Cabo Delgado já viu morrer quase 6.500 pessoas, em mais de dois mil eventos violentos. Números frios para uma tragédia quente. E, ainda assim, o país segue como se nada fosse, como se abandonar a própria terra fosse apenas mais uma estatística, mais uma nota de rodapé na longa história dos fracassos que se acumulam sem consequência. Que raio de país é este?
Um país onde o camponês foge da terra, onde os trabalhadores perdem emprego diariamente, onde viver virou um acto de resistência. Moçambique tornou-se, com uma consistência quase cruel, um dos piores alunos do mundo em quase tudo o que importa. Está entre os países com mais baixo Índice de Desenvolvimento Humano, entre os cinco mais pobres do planeta, entre os que registam níveis alarmantes de desnutrição, entre os que oferecem menos acesso a serviços básicos, entre os mais vulneráveis às mudanças climáticas e entre os mais dependentes de ajuda externa. Não é azar, não é coincidência, não é destino. É falhanço, um falhanço prolongado, institucionalizado, normalizado. Enquanto outros países avançam, Moçambique arrasta-se; enquanto outros constroem, nós remendamos; enquanto outros planeiam o futuro, nós tentamos sobreviver ao presente. E mesmo na sobrevivência, falhamos.
Agora, até o pouco que ainda sustentava alguma esperança começa a ruir. Durante anos, milhares de moçambicanos qualificados encontraram refúgio profissional nas ONGs, nos programas financiados por parceiros internacionais, nas iniciativas de desenvolvimento que, ainda que insuficientes, mantinham alguma circulação de renda e dignidade. Não era o ideal, mas era o que havia. Hoje, até isso está a desaparecer.
Com a retração de financiadores como a USAID e a saída progressiva de países como a Suécia e outros parceiros históricos, o sector humanitário e de desenvolvimento encolhe de forma brutal. Projectos encerram, escritórios fecham, equipas inteiras são dispensadas. Quadros altamente qualificados, com anos de experiência, formação sólida e competências comprovadas, estão agora em casa, sem emprego, sem perspectivas, sem futuro. O país não absorve, o Estado não responde, o mercado não existe. E assim, uma geração inteira vai sendo empurrada para o vazio, numa espécie de silêncio colectivo que ninguém parece disposto a enfrentar.
Mas não são apenas as ONGs. O sector privado, já fragilizado, já sufocado, começa a dar sinais evidentes de colapso. Empresas anunciam saídas, suspendem operações, reduzem actividades. A lista cresce e assusta: fala-se da Mozal em risco, a Dugongo sob pressão, a Kenmare apontada como possível saída, a MEREC, a Shoprite a enfrentar dificuldades. À volta destas, dezenas de empresas de apoio — manutenção, engenharia, catering, logística — começam a cair como peças de dominó. Fala-se também de milhares de trabalhadores já afectados ou prestes a perder o emprego. Não é apenas uma crise. É um desmantelamento progressivo de um tecido económico já frágil, um país a perder, lentamente, as poucas âncoras que ainda o mantinham à tona.
E depois há os pequenos, os invisíveis, os que verdadeiramente sustentam o país no dia-a-dia. O dono do bar onde sorvemos algumas geladas, a mulher do salão de cabeleireiro, o jovem da pequena boutique, o vendedor da mercearia, o mukherista que atravessa fronteiras para trazer mercadoria. Esses não aparecem nos relatórios, não entram nas estatísticas sofisticadas, mas são eles que seguram a economia real. E são eles que estão a ser esmagados. Pelo fisco, pelas taxas e impostos terroristas, pelas multas, pela burocracia, pela corrupção. Trabalham todos os dias, abrem cedo, fecham tarde, lutam para manter o negócio vivo — e no fim, o lucro desaparece. Vai para o Estado. Um Estado inútil que não devolve, não protege, não serve. Um Estado que apenas cobra. Cobra mal, cobra muito, cobra sem critério, cobra como quem pune. Empreender em Moçambique tornou-se um acto de coragem, e, muitas vezes, um erro fatal.
E no topo de tudo isto, há uma elite. Uma elite política que vive bem, que não sente o peso do país real, que não conhece a fila do hospital, que não anda nas estradas esburacadas, que não perde o emprego, que não foge de terroristas. Uma elite que governa há décadas. Desde 1994, prometem desenvolvimento, prometem emprego, prometem dignidade, prometem futuro melhor. Trinta anos depois, o que temos? Um país mais pobre, mais desigual, mais frustrado, mais cansado. Um país que recua mais do que avança. E uma elite que continua — intocável, inquestionável, insubstituível. Uma elite que persegue, que silencia, que reprime, que se protege, que mata, mas que não sabe governar. Porque governar é servir, é melhorar a vida do povo. E isso nunca aconteceu desde 1975.
Que mal cometemos? Que pecado colectivo carregamos para merecer isto? Porque viver em Moçambique tornou-se, uma experiência amarga, uma luta constante, um cansaço permanente. Não há descanso, não há segurança, não há estabilidade, não há esperança clara. A vida é curta, passageira. Não há tempo infinito para esperar por promessas. A vida passa, o tempo corre, e nada muda. As pessoas envelhecem e morrem à espera de um país melhor, e esse país nunca chega.
Hoje, não há um único sector plenamente saudável. A economia está frágil, a indústria a cair, o emprego a desaparecer, a agricultura não existe, a segurança comprometida, a ajuda externa a reduzir. Não há motor, não há direcção, não há plano convincente. O sonho da chamada independência económica tornou-se uma ironia cruel, porque um país sem produção, sem emprego, sem investimento não é independente — é dependente, e cada vez mais.
E então, mais uma vez, que raio de país é este? Um país onde o camponês foge, o trabalhador perde, o empresário desiste, o jovem desespera e o político continua rico. Até quando? Até quando vamos normalizar o absurdo? Até quando vamos chamar dificuldades a um fracasso estrutural? @Jornal NGANI, Crónicas do Absurdo, 23 de Março de 2026

