AGIOTAS: Os parasitas número um dos funcionários públicos

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

Em muitos bairros das cidades e distritos da nossa pátria amada, existe uma realidade silenciosa que pesa diariamente sobre a vida de milhares de funcionários públicos: a dependência dos agiotas. Este fenómeno, cada vez mais visível, tornou-se um dos maiores pesadelos para professores, enfermeiros, polícias, agentes administrativos e outros trabalhadores do Estado que lutam para sobreviver com salários que muitas vezes não acompanham o custo de vida.

O funcionário público em Moçambique já começa o mês sufocado. Antes mesmo de tocar no seu salário, uma parte significativa já foi retirada pelo banco. São créditos bancários contraídos para resolver problemas urgentes: construir uma casa simples, comprar uma veículo, pagar propinas dos filhos, tratar uma doença na família ou enfrentar outras emergências da vida. Como esses empréstimos são descontados diretamente na fonte, muitos trabalhadores recebem apenas uma pequena parte do seu salário.

Com pouco dinheiro nas mãos e muitas responsabilidades em casa, muitos acabam recorrendo aos agiotas do bairro. É neste momento que começa um ciclo difícil de quebrar.

Eles sugam a força do funcionário

Os agiotas funcionam como uma espécie de “socorro imediato”. Quando a criança adoece, quando falta dinheiro para alimentação ou quando surge qualquer emergência, é ao agiota que muitos recorrem. O problema é que esse socorro cobra um preço extremamente alto.

Os agiotas não têm piedade. Eles não sugam sangue, mas sugam a força do funcionário público. Cobram juros elevados e impõem condições que muitas vezes retiram a liberdade financeira do trabalhador. Em muitos casos, o funcionário entrega o próprio cartão bancário como garantia da dívida. A partir desse momento, perde praticamente o controlo sobre o seu próprio salário.

Há funcionários que já nem conhecem o ATM do banco. O cartão fica nas mãos do agiota. No dia do pagamento, o agiota levanta o dinheiro antes do verdadeiro dono. Retira a sua parte — muitas vezes grande — e depois entrega ao funcionário apenas as migalhas que restam.

Assim, o trabalhador passa o mês inteiro a lutar para sobreviver com um valor mínimo. Quando o dinheiro acaba, a única solução que encontra é voltar novamente ao agiota. E o ciclo continua.

Funcionários que recebem seus salários nas casas dos agiotas

O mais curioso e preocupante é que, para muitos, a dívida com o agiota nunca termina. A pessoa paga hoje e, no mesmo dia ou poucos dias depois, volta a pedir dinheiro emprestado. Cria-se uma dependência perigosa, quase como um vício.

Há casos em que os funcionários chegam ao ponto de receber os seus salários diretamente nas casas dos agiotas. É uma situação que revela o nível de controlo que esses credores informais exercem sobre a vida financeira de muitos trabalhadores.

Os agiotas estão por todo lado. Estão nos bairros, nas esquinas, nos mercados e, em alguns casos, até dentro das próprias instituições públicas. Tornaram-se parte de um sistema informal que cresce silenciosamente.

Basta observar com atenção alguns ATM nos dias de pagamento. Quando se vê uma pessoa com vários cartões bancários na mão, muitas vezes não se trata de um simples cliente. É um agiota que está ali para levantar o dinheiro de vários funcionários.

Ninguém rouba ao agiota

O mais intrigante é que raramente se ouve falar de um agiota que perdeu dinheiro porque alguém fugiu ou deixou de pagar. Os devedores dificilmente ousam mudar o PIN do cartão ou fugir da dívida. Existe um medo silencioso que mantém o sistema funcionando.

Enquanto isso, os agiotas continuam a prosperar. Muitos não pagam impostos e operam completamente fora do sistema financeiro formal. Apesar disso, a prática continua a crescer. Em alguns casos, parece haver uma certa indiferença das estruturas locais, talvez porque a realidade social seja complexa e até algumas pessoas ligadas ao sistema também dependam desses empréstimos informais.

Outro grande problema é a falta de regras. Cada agiota define a sua própria taxa de juros. Não existe limite, controlo ou proteção para quem pede o dinheiro. Como resultado, a maioria dos devedores acaba sempre prejudicada.

Agiotas não facilitam a vida de ninguém — eles dificultam.

É importante reconhecer que a vida em Moçambique está cada vez mais difícil. O custo de vida sobe, enquanto os salários de muitos funcionários públicos permanecem praticamente os mesmos. Neste cenário, os agiotas acabam por aparecer como uma solução rápida para momentos de desespero.

Mas essa solução, muitas vezes, transforma-se numa armadilha. Dependência excessiva dos agiotas pode destruir a estabilidade financeira de uma família inteira. Quando alguém entra nesse ciclo de empréstimos constantes, torna-se difícil planear o futuro, poupar dinheiro ou melhorar a qualidade de vida.

Por isso, é fundamental que os funcionários públicos tenham limites ao recorrer a esse tipo de ajuda. Pedir dinheiro emprestado em situações realmente urgentes pode parecer inevitável, mas transformar isso num hábito permanente é extremamente perigoso.

Ao mesmo tempo, esta realidade deve servir como um alerta para a sociedade e para as autoridades. É necessário encontrar soluções que protejam os trabalhadores, promovam educação financeira e ofereçam alternativas de crédito mais justas e acessíveis.

Enquanto isso não acontece, muitos funcionários continuarão a viver com saudades de algo simples: poder pegar no seu próprio cartão bancário, ir ao ATM e levantar o seu salário sem medo, sem intermediários e sem dívidas que nunca acabam.

Adriano Fernando Ricardo

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *