Namaita grita por emprego enquanto “estrangeiros da terra” ocupam oportunidades locais

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

Os jovens do posto administrativo de Namaita, no distrito de Rapale, província de Nampula, decidiram romper o silêncio e denunciar aquilo que consideram ser uma exclusão sistemática no acesso ao emprego, formação profissional e oportunidades de desenvolvimento, mais de 50 anos após a independência de Moçambique.

Agostinho Miguel

Os residentes afirmam que os discursos oficiais sobre criação de emprego e inclusão juvenil contrastam com a realidade vivida naquela região, onde grande parte da juventude continua sem acesso a trabalho digno, ensino de qualidade e serviços sociais básicos.

Uma das principais reclamações está relacionada com a instalação, há cerca de quatro anos, de uma instituição de ensino superior em Namaita. Segundo os jovens, a universidade pouco ou nada tem beneficiado os naturais da região, privilegiando estudantes provenientes de outros pontos da província.

“Há estudantes que passam quatro anos aqui e não têm nenhum colega natural de Namaita. Isso nos faz sentir excluídos dentro da nossa própria terra”, lamentou Saide Armando.

Os jovens garantem que não são contra a presença da instituição, mas defendem a criação de mecanismos que permitam maior inclusão dos residentes locais no acesso ao ensino superior.

“Gostaríamos que uma parte das vagas fosse reservada para os filhos desta terra. Somos nós que convivemos diariamente com esta realidade”, acrescentou Armando.

Além da educação, as críticas estendem-se às fábricas instaladas naquela região. Os jovens acusam algumas empresas de ignorarem os naturais no recrutamento e de manterem práticas laborais precárias, com contratos temporários e ausência de estabilidade.

“Somos contratados por pouco tempo e depois mandados embora. Enquanto isso, pessoas vindas de fora conseguem empregos melhores e permanentes”, denunciaram.

Outra preocupação prende-se com a ausência de naturais em cargos de chefia nas empresas instaladas em Namaita. Para os jovens, a liderança não deve depender da origem geográfica.

“Ser chefe não depende de onde a pessoa vem. Nós também temos capacidade para ocupar cargos de liderança”, afirmou Dinis Francisco.

A revolta aumentou após um episódio envolvendo um grupo de jovens locais que teria saído de Namaita com promessas de formação e emprego. Segundo relatos, viajaram sem documentação formal e acabaram envolvidos num acidente de viação durante o regresso, ficando vários deles incapacitados.

“Hoje não conseguem trabalhar e não recebem qualquer apoio. Foram simplesmente abandonados”, contou Francisco.

Para os residentes, estes casos revelam uma exclusão persistente que continua a marcar a vida de muitos jovens moçambicanos, sobretudo nas zonas rurais, décadas depois da independência nacional.

No sector da saúde, as preocupações também são visíveis. Em localidades como Peone e Nicoloma existem centros de saúde cujas obras permaneceram paralisadas durante longos períodos. Embora alguns trabalhos tenham sido retomados após pressão popular, a população continua céptica quanto à conclusão efectiva das infraestruturas.

“Não sabemos se vão mesmo terminar como centros de saúde ou se isto é apenas para acalmar a população”, afirmou Julieta da Silva.

A ausência desses serviços obriga muitas famílias a percorrer grandes distâncias em busca de assistência médica, agravando a sensação de abandono nas comunidades rurais.

Em resposta às reclamações, o Secretário de Estado na província de Nampula, Plácido Nerino Pereira, que visitou recentemente Namaita, reconheceu que as preocupações apresentadas pela juventude são legítimas.

“São preocupações justas e demonstram que a comunidade está atenta ao seu próprio desenvolvimento”, afirmou.

Sobre o acesso à universidade, Pereira explicou que o ingresso obedece a critérios de mérito académico, embora tenha admitido a necessidade de analisar as preocupações apresentadas pelos jovens locais.

“Tomamos nota do desejo de ver mais jovens naturais da região a terem acesso”, disse.

Relativamente aos centros de saúde, o dirigente assegurou que as obras em curso visam concluir as infraestruturas para benefício da população.

“Os centros estão a ser recuperados para servir as comunidades”, garantiu.

Quanto às denúncias relacionadas com as fábricas, o governante prometeu abordar o assunto com as autoridades distritais.

“Vamos trabalhar para garantir o cumprimento da lei do trabalho”, assegurou.

Entretanto, enquanto as promessas se acumulam, muitos jovens de Namaita continuam sem perspectivas concretas de emprego ou formação. A sensação de exclusão cresce numa região onde os residentes afirmam sentir-se estrangeiros dentro da própria terra.

O cenário contrasta com os discursos oficiais sobre inclusão e empregabilidade juvenil. No papel, as oportunidades parecem existir. Mas, para muitos jovens de Namaita, a realidade continua distante, marcada por promessas repetidas e um futuro cada vez mais incerto. Agostinho Miguel

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *