A província de Nampula continua mergulhada numa crise silenciosa no transporte marítimo e fluvial, marcada por acidentes sucessivos, embarcações precárias e um sistema de fiscalização incapaz de travar tragédias anunciadas. Em vários pontos da costa e das ilhas da província mais populosa do país, barcos a motor e canoas continuam a operar em condições inseguras, expondo diariamente centenas de passageiros ao risco de morte.
Em muitas comunidades, sobretudo nas zonas costeiras e insulares, o transporte aquático não é uma alternativa, mas sim a única ligação entre populações, mercados, escolas e unidades sanitárias. Sem estradas funcionais, milhares de pessoas dependem diariamente de embarcações para sobreviver.
Entretanto, a precariedade das condições de navegação continua a transformar travessias rotineiras em autênticas viagens de risco. Nos últimos anos, Nampula registou vários acidentes graves envolvendo embarcações sobrelotadas, sem coletes salva-vidas suficientes e com fiscalização considerada fraca ou inexistente.
Um dos episódios mais trágicos ocorreu na travessia entre a Ilha de Moçambique e Mossuril, quando uma embarcação transportando mais de uma centena de passageiros naufragou, provocando a morte de todos os ocupantes. O caso chocou o país e levantou fortes questionamentos sobre as condições em que o transporte marítimo continua a funcionar na província.
Na altura, o Governo central, então dirigido por Filipe Nyusi, criou uma comissão de inquérito para investigar as causas do desastre. Contudo, até hoje, os resultados finais nunca foram tornados públicos, alimentando dúvidas sobre responsabilidades e eventuais medidas correctivas adoptadas após a tragédia.
Outro acidente mortal foi registado no distrito de Angoche, numa embarcação que fazia a rota entre Thamole e a cidade costeira. Mais de dez pessoas perderam a vida, entre elas crianças, num cenário que voltou a expor as fragilidades crónicas do sector.
Apesar dos acidentes e das constantes denúncias, continuam recorrentes os relatos de sobrelotação, ausência de coletes salva-vidas e incumprimento das regras básicas de segurança marítima. Em muitos casos, as embarcações continuam a operar sem condições mínimas para o transporte de passageiros.
Perante este cenário, o Instituto Nacional de Transportes Marítimos (INTRASMAR), em Nampula, admite dificuldades financeiras que comprometem a capacidade de resposta da instituição. O delegado provincial da entidade, Adamo Rachide, reconheceu que a falta de fundos está a afectar directamente a aquisição de equipamentos essenciais de segurança.
“Temos muitas restrições em termos de orçamento. Para este ano, não ficámos dentro por conta da indisponibilidade de fundos”, afirmou.
Segundo o responsável, a instituição não conseguiu assegurar, este ano, a distribuição regular de coletes salva-vidas aos operadores marítimos.
“Os coletes estão disponíveis a bordo de cada embarcação, são usados, mas não são suficientes”, explicou.
Rachide acrescentou que o número de passageiros autorizados a embarcar depende directamente da quantidade de coletes disponíveis em cada embarcação.
“Todos os passageiros que fazem a travessia têm que estar em uso de colete. Quer dizer que os passageiros embarcam em função do número de coletes existentes a bordo da embarcação”, acrescentou.
Dados do sector indicam que mais de mil passageiros utilizam diariamente diferentes rotas marítimas na província. Para responder minimamente às necessidades actuais, o INTRASMAR estima necessitar de cerca de 22 milhões de meticais, tendo em conta que cada colete salva-vidas custa aproximadamente sete mil meticais.
Enquanto persistirem limitações financeiras, fiscalização deficiente e ausência de investimento sério na segurança marítima, as travessias em Nampula continuarão a ser feitas entre a necessidade de viajar e o medo permanente de não chegar ao destino. Redacção

