Medo das vacinas faz regressar o sarampo: um bebé morre e dezenas de crianças são internadas em Nampula

Facebook
Twitter
LinkedIn
Pinterest
Pocket
WhatsApp
blank

Desinformação, falta de confiança e dificuldades de acesso aos serviços de saúde levam muitas mães a recusar a vacinação dos filhos, enquanto o Hospital Central de Nampula assiste ao reaparecimento de uma doença que parecia controlada

Redacção

O sarampo, uma doença que durante anos parecia estar sob controlo, está novamente a fazer vítimas em Nampula. Entre Janeiro e Maio deste ano, o Hospital Central de Nampula registou 115 casos da doença, a maioria em crianças com menos de dois anos de idade. Trinta e cinco pacientes precisaram de internamento e uma criança acabou por perder a vida.

Por detrás destes números, médicos e autoridades sanitárias identificam uma realidade preocupante: cada vez mais mães estão a recusar levar os seus filhos às campanhas de vacinação promovidas pelo Ministério da Saúde.

As razões variam entre a falta de confiança nas vacinas, crenças tradicionais, dificuldades económicas e problemas de acesso às unidades sanitárias.

No bairro de Muatala, na unidade comunal de Cossore, Carolina Abdul, mãe de três filhos, confessa que deixou de acreditar nas vacinas depois de uma experiência que considera traumática. “Quando levei o meu filho para ser vacinado, ele ficou doente e deixou de mamar. Fiquei muito preocupada e tive de recorrer a um curandeiro para ele voltar ao normal”, conta.

Para Carolina, os tempos mudaram e a medicina moderna nem sempre oferece as respostas esperadas. “Os nossos antepassados nunca levaram os filhos para vacinar e as crianças cresciam saudáveis”, afirma.

A mãe levanta ainda suspeitas sobre a eficácia dos imunizantes, chegando mesmo a questionar a validade das vacinas administradas.

Também em Muatala, Flora António, mãe solteira e de primeira viagem, conta que o seu filho não recebeu a vacina logo após o parto porque, segundo lhe foi explicado pelos profissionais de saúde, não havia doses disponíveis na unidade sanitária.

Foi orientada a regressar uma semana depois, mas nunca mais voltou. “Aqui não há transporte. O táxi-mota é caro e eu não tenho dinheiro. O pai da criança abandonou-me ainda grávida. Desde que nasceu, o meu filho nunca ficou doente e, sinceramente, também não confio muito nessas vacinas”, relata.

No bairro de Namicopo, o mais populoso da cidade de Nampula, muitas mulheres partilham as mesmas dúvidas e desconfianças.

Moradoras da unidade comunal de Namiepe contam que a situação se agravou depois dos episódios de vandalização do centro de saúde local, durante as manifestações que abalaram a cidade, obrigando muitas mulheres a darem à luz em casa, sem assistência médica.

Enquanto isso, no Hospital Central de Nampula, os médicos observam com preocupação o regresso de uma doença altamente contagiosa.

A pediatra Érica Ludovina Carlitos explica que, ao contrário deste ano, em 2025 a maior unidade sanitária do norte do país não tinha registado qualquer entrada de pacientes com sarampo.

Segundo a médica, a criança que perdeu a vida chegou ao hospital já em estado grave e não resistiu, acabando por morrer menos de 48 horas depois da admissão.

A especialista reconhece a existência de falhas no cumprimento do calendário vacinal e alerta que, mesmo entre crianças hospitalizadas, há casos em que o esquema de vacinação permanece incompleto.

Face ao aumento dos casos, o sector da saúde realizou, em Maio, uma campanha de vacinação de bloqueio, embora sem avançar números sobre os beneficiários.

O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa. Uma única pessoa infectada pode transmitir o vírus a entre 12 e 18 outras pessoas.

Num contexto em que a desinformação cresce e a confiança nos serviços de saúde diminui, médicos alertam que o regresso do sarampo pode transformar-se numa nova ameaça para a infância em Nampula. Celestino Manuel

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *