Uma disputa por um terreno destinado à instalação de um mercado informal, num bairro próximo da Antena, na cidade de Nampula, terminou em violência, com pelo menos duas pessoas feridas à catana, casas vandalizadas e uma residência incendiada.
A confrontação envolveu grupos de jovens armados com catanas e resultou na detenção de vários suspeitos pela Polícia da República de Moçambique (PRM).
No centro do conflito está o secretário do bairro, identificado nos testemunhos como Warica, acusado por alguns moradores de vender, sem autorização, parcelas de terrenos que não lhe pertenceriam. O secretário nega as acusações.
Conflito termina em violência
Segundo o porta-voz da PRM, Dércio Samuel, conflitos relacionados com terrenos têm-se repetido em diferentes pontos da cidade e, em alguns casos, acabam resolvidos pela violência.
Numa ocorrência distinta, nas proximidades da 2.ª Esquadra, quatro indivíduos foram detidos por, alegadamente, agredirem e incendiarem a residência de um chefe de quarteirão, acusado de usurpar um terreno.
“A Polícia da República de Moçambique quer apelar à não-justiça pelas próprias mãos”, declarou Dércio Samuel, apelando aos cidadãos para encaminharem os conflitos às instituições competentes.
Segundo o porta-voz, cabe às autoridades investigar as denúncias e responsabilizar os envolvidos em actos criminais.
Secretário diz ter sido atacado
Warica contou que o episódio começou quando moradores decidiram ocupar um terreno coberto de mato para instalar um mercado informal. O projecto gerou um desentendimento com um proprietário de terreno vizinho, que alegava que parte da área cedida invadia a sua parcela.
Segundo o secretário, enquanto tentavam resolver o desacordo, um grupo de jovens apareceu e iniciou a agressão. “Um dos homens lançou-me uma pedra, eu caí. Ao querer levantar-me, tiraram a catana e cortaram-me aqui. Fugi já inconsciente”, relatou.
Warica foi levado ao Hospital Central de Nampula, onde recebeu dez pontos. O secretário afirma ainda que, enquanto recebia tratamento, os mesmos grupos percorreram o bairro à sua procura, destruindo portas e bens de moradores que suspeitavam estar a escondê-lo.
Segundo o seu relato, três portas foram destruídas, uma casa foi incendiada e vários bens, incluindo um televisor, aparelho de som e mobiliário, foram danificados. Warica nega ter vendido terrenos alheios e responsabiliza os grupos que, segundo ele, foram mobilizados para o atacar.
Morador aponta jovens de fora do bairro
Um morador que presenciou parte dos acontecimentos confirmou que a violência começou depois de uma queixa apresentada ao secretário pelo proprietário de um terreno vizinho.
Segundo o testemunho, os agressores não eram residentes do bairro e percorriam as casas armados com catanas, agredindo pessoas que encontravam pelo caminho. O morador identificou os jovens como provenientes de Itajão, uma zona próxima do local do conflito.
Detidos apresentam outra versão
Os dois detidos ouvidos apresentam uma versão diferente sobre a origem do conflito. Segundo um dos jovens, a disputa começou em Itajão, num terreno que afirma ter herdado do avô. O detido acusa Warica de ter tentado vender parcelas desse espaço sem autorização da família.
O jovem afirma que, quando a família contestou a alegada venda, elementos ligados ao secretário reagiram com violência. “Quando chegámos lá, encontrámos todos eles com a catana. Bateram até na minha avó, que é surda. Nós éramos só três pessoas”, afirmou.
O detido nega qualquer envolvimento no incêndio das casas e diz ter sido detido horas depois, quando regressava a casa.
Uma segunda detida, também ligada à família de Itajão, apresentou um relato semelhante. Disse que o conflito começou quando tentou construir uma casa num terreno que considera herança familiar. “Ele apareceu e disse que não podíamos construir ali, porque já tinha vendido aquele espaço. A minha mãe, que é muda, estava presente e ele empurrou-a, ela caiu”, relatou.
A mulher também nega ter participado no incêndio, atribuindo o acto a outras pessoas que se juntaram ao confronto.
Autoridades vão apurar responsabilidades
Os testemunhos recolhidos divergem sobre quem iniciou a violência e sobre a sequência exacta dos acontecimentos. Há, contudo, um ponto comum: o conflito está ligado a reivindicações sobre a posse, ocupação e alegada venda de terrenos.
O caso encontra-se agora sob investigação das autoridades. Caberá à PRM e aos tribunais determinar as responsabilidades pelos ataques, ferimentos, destruição de bens e incêndio, bem como apurar a veracidade das acusações de venda irregular de terrenos atribuídas ao secretário do bairro. Moniro Abdala

