Universidade Rovuma: Pública só no nome, Privada na atitude

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“Paga ou desiste.” Esse é o ultimato imposto aos estudantes da Universidade Rovuma, uma instituição que, embora ostente o título de pública, opera com a frieza de uma empresa privada. O cenário agrava-se a cada novo semestre: prazos curtos, regras inflexíveis e decisões administrativas que ignoram a realidade socioeconómica de milhares de estudantes moçambicanos.

A mais recente medida da Direcção do Registo Académico, chefiada pela influente Professora Doutora Elisa da Conceição, impõe um prazo de apenas duas semanas para o pagamento de propinas e a conclusão do processo de inscrição. Quem não cumprir, está fora. Sem direito a recurso, sem plano de pagamento faseado, sem sequer uma escuta institucional. Uma sentença académica disfarçada de norma administrativa.

A pergunta que ecoa entre corredores é uma só: que universidade pública impõe condições tão impiedosas aos seus próprios estudantes?

Num país onde o salário mínimo ronda os 5.000 meticais, obrigar um estudante, muitas vezes vindo de distritos remotos, sem rede de apoio e com grandes sacrifícios familiares, a desembolsar em tão pouco tempo o equivalente a várias vezes o rendimento familiar mensal é uma violência institucionalizada. Trata-se, pura e simplesmente, de exclusão.

A Universidade Rovuma está a transformar-se num símbolo da elitização do ensino superior. Não é exagero dizer que o acesso ao ensino público superior está a ser privatizado na prática. Os estudantes que não conseguem pagar são descartados. E quem questiona o sistema, é silenciado pela burocracia ou pela ameaça velada de represálias académicas.

Um Ministério ausente e um sistema cúmplice

Onde está o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior? Onde está o Estado que deve garantir o direito ao ensino público, acessível e inclusivo? Em silêncio. Omisso. Cúmplice.

Enquanto isso, a universidade adopta um modelo empresarial: impõe taxas cada vez mais altas, encurta os prazos de pagamento, reduz os canais de comunicação com os estudantes e mantém uma gestão autoritária, desconectada das realidades sociais que deveria combater.

Há muito que a Universidade Rovuma deixou de ser um espaço de esperança. Tornou-se um ambiente de pressão psicológica, chantagem financeira e abandono institucional. Um lugar onde se aprende menos sobre ciência e mais sobre sobrevivência.

A normalização do absurdo

O mais grave é que esta realidade já foi denunciada e ignorada. A própria imprensa deu voz aos estudantes noutras ocasiões, alertando para o perigo de se institucionalizar a exclusão no ensino público. No entanto, a Universidade Rovuma não recua. Pelo contrário: endurece.

É como se a direção da universidade, liderada por figuras blindadas por estatutos e condecorações, se regozijasse com o poder de decidir quem merece ou não estudar. Ignoram as dificuldades, escarnecem dos pedidos de flexibilização e fecham os olhos às lágrimas de quem só quer uma oportunidade.

Se nada for feito, Moçambique terá de aceitar que está a construir um sistema universitário onde o mérito cede lugar ao poder económico. Onde diplomas já não são fruto de esforço, mas de capacidade financeira. Onde o ensino público serve apenas de fachada para práticas de exclusão institucional.

O que está em jogo

Não se trata apenas de prazos de inscrição. Trata-se do futuro de uma geração. Trata-se de dignidade. Trata-se da missão de uma universidade que perdeu o rumo, que esqueceu o seu papel social e que parece mais preocupada em arrecadar fundos do que em formar cidadãos.

Chegou a hora de repensar urgentemente as políticas de gestão do ensino superior. De exigir transparência, humanização, diálogo e responsabilidade social. De pôr fim à arrogância institucional que transforma cargos administrativos em tronos absolutistas.

A Universidade Rovuma não pode continuar a operar como uma empresa privada em nome do Estado. Se é pública, que se comporte como tal. E se for preciso reformar toda a sua liderança, que assim seja. Porque o que está em jogo não é apenas uma matrícula. É o futuro de um país.

Por: Estudantes indignados – Vozes silenciadas, mas não caladas.

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