Porquê a comunicação climática é uma “arma necessária” para protecção da camada de ozono?

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A comunicação é saúde, a saúde é comunicação. A existência de um sujeito ou homem aglutinam-se as capacidades, habilidades e competências de aprender e repreender por meio significados de acções e relações estabelecidas com o meio-ambiente. No meio (ecossistema) habita diversos seres vivos, entre os quais pessoas, animais e plantas dependentes pelo recurso hídrico.

O homem, por meio das instituições tradicionais e convencionais, vive e age para preservar o seu meio, porque produz representações, experiências culturais, linguagem e multiplicidades de actividades que lhe permite viver sem necessidade de pôr em causa o ecossistema. Na lógica humana, o conceito de conviver refere-se à interacção com os demais, diálogo, negociação, manifestação, entre outros. O acto de conviver é uma presença física ou virtual, tangível, que pode convergir em soluções, observar, investigar, resultando em uma forma de educação, aprendizado, reconhecimento, negação, apoio, identificação, submissão, entre outros.

Ao conviver, surgem práticas comunicacionais que podem ir de encontro ou contrariar os valores enraizados no benefício individual a curto prazo. Comunicamos através da acção de conversar, porque desejamos compreender um fenómeno específico, um obstáculo, um desvio da norma, a violação dos direitos humanos, a “pobreza do pobre empobrecido”, a “injustiça oficializada contra a justiça”, contra o bem-colectivo, contra a ignorância científica, contra a baixa qualidade dos cuidados de saúde, contra práticas nocivas mediatizadas, contra “almas vivas infeciosas”, contra o modus operandi de Gases de Efeito Estufa (GEE). Estamos a pôr em prática estratégias de comunicação.

A conversa não se rege apenas pela aceitação ou negação, mas também pelo conhecimento dos fenómenos sociais, psicológicos, culturais, económicos e políticos que afectam a qualidade de vida do indivíduo ou da sociedade. Nesta arte de conversar, descobrimos, compreendemos e posicionamo-nos com base nos factos narrados pelo outro. Aceitamos ou negamos quando temos informações suficientes/desactualizadas, o que significa que a acção comunicativa da conversa pode esclarecer-nos sobre os motivos pelos quais somos assim e não como desejamos, ou sobre os motivos pelos quais a nossa dignidade é confundida com oportunidade. Nascemos com dignidade, somos dignos, mas as oportunidades nem sempre abrangem todos. A falta de oportunidades resulta da ausência de informação, do nível de empobrecimento, da exclusão social e económica, da marginalização dos direitos humanos, sintomas sanguinários da corrupção no Estado, da desgovernação, do poder controlado do capitalismo selvagem, da fraca liberdade de imprensa, da sociedade civil com interesses do regime, da proliferação religiosa, entre outros.

Portanto, é na ausência de oportunidades que somos particularmente vulneráveis às causas de GEE. A nossa saúde, tanto a nível individual como colectivo, está em risco, sobretudo nas comunidades mais vulneráveis das zonas assoladas anualmente pela seca, inundações e ciclones. Como é que a vulnerabilidade às alterações climáticas afecta a saúde humana? Em primeiro lugar, a comunicação interpessoal através da interacção verbal é uma “arma necessária” para partilhar experiências e salvar vidas. Por exemplo, o Ministério da Saúde em Moçambique tem investido diversos recursos na área da comunicação, nomeadamente na produção de teasers, na formação de voluntários para campanhas, na fumigação de habitações e na oferta de redes mosquiteiras, entre outras acções para a prevenção das doenças à sociedade.

Em segundo lugar, a comunicação afectiva possibilita apoiar as comunidades nas formas de mitigação, adaptação e resiliência climática. Sem dúvida que os eventos climáticos (secas e ondas de calor de longa duração), os desastres (furacões, cheias, inundações, incêndios e ondas de calor) provocados pela acção antrópica e as mudanças ambientais (temperaturas altas e aumento do nível do mar ao longo do século) provocam perdas económicas (perda de rendimento e baixa produtividade na agricultura e na pesca) e ameaçam a saúde e o bem-estar (ferimentos e mortes causados pelas alterações climáticas) (Palinkas & Wong, 2020).

A academia demonstra, numa abordagem interdisciplinar, que os eventos climáticos e a saúde estão altamente relacionados com elevadas taxas de ansiedade e distúrbios de humor, reações de stress agudo e pós-traumático, perturbações do sono, suicídio, baixa autoestima e perturbações da identidade, devido à perda de residência e reações de luto. No período pós-desastre, manifestam-se factores de risco para doenças mentais, nomeadamente a magnitude do evento traumático, a exposição a ferimentos ou à morte de um ente querido, o sexo feminino, a idade mais jovem, o estatuto socioeconómico mais baixo, a escolaridade mais baixa, o estatuto de minoria étnica, o histórico psiquiátrico, a instabilidade familiar e o apoio social inadequado (Scaramutti, 2019; Palinkas & Wong, 2020: 12). Um exemplo são as famílias do bairro de Magoanine, na cidade de Maputo, que no primeiro trimestre de 2025 foram afectadas por inundações, perderam as suas casas e fontes de rendimento e continuam a enfrentar traumas, instabilidade económica e familiar, um baixo nível de escolaridade das crianças, um sentimento de não pertença à moçambicanidade, exclusão social e política, consumo de droga, entre outros problemas.

Os autores salientam que as ondas de calor podem agravar doenças mentais subjacentes e distúrbios comportamentais, contribuindo para taxas mais elevadas de morbilidade, mortalidade e internamentos entre indivíduos com estas condições, especialmente entre aqueles com demência, esquizofrenia e perturbações por consumo de substâncias, devido à má termorregulação associada a medicamentos psicotrópicos e ao comprometimento cognitivo relacionado com o calor. No contexto moçambicano, apesar da inexistência de dados oficiais sobre mortes associadas às ondas de calor, verifica-se, neste período, uma maior afluência às unidades de saúde para consulta de doenças cardíacas.

No dia 8 de Março de 2024, a maior unidade sanitária do país, Hospital Central de Maputo, registou 300 pacientes enquanto no Banco de Socorros variou de 400 a 500 doentes devido as ondas de calor que rondavam entre 43 e 45 graus centígrados (Rádio de Moçambique, 2024). O estudo, de He et al. (2018), indica que, no período de calor entre 1989 e 2012 (Maio a Outubro), 17 172 mulheres grávidas na cidade de Quebec, no Canadá, tiveram uma gravidez complicada devido ao descolamento prematuro da placenta, relacionado com factores de pobreza financeira. O estudo de Drolet (2012) na Colúmbia Britânica concluiu que, dos 121 inquiridos, as alterações climáticas influenciaram a centralidade da segurança alimentar, a saúde e os impactos económicos. Laverdigue et al. (2016) demonstram que, entre 1980 e 1996, 1233 idosos com mais de 68 anos de idade, residentes no sul da cidade capital canadiana, morreram devido ao stress do calor.

No que se refere ao continente africano, o estudo realizado na África do Sul por Langkulsen (2023) e intitulado “Implicações das alterações climáticas na saúde e populações vulneráveis na África do Sul: uma revisão sistemática” conclui que as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde, rendimentos e recursos persistem nas populações vulneráveis. Assim, as mudanças climáticas agravam as desigualdades em termos de pobreza, saneamento, acesso aos cuidados de saúde e educação, aumentando a vulnerabilidade em termos económicos, sociais e ambientais. O autor concluiu que a extensão em que as populações são afectadas por desastres não é determinada apenas pela sua proximidade à fonte do desastre, mas sim por uma série de factores contextuais e pelos impactos combinados de situações sociais, económicas, políticas e ambientais.

Portanto, a protecção da camada de ozono é uma necessidade prioritária para melhorar a qualidade de vida humana. A comunicação climática não se pode resumir a consultas comunitárias ou acções detectadas ao olho nu sobre os factores que agravam a pobreza; há que cultivar uma cultura de convivência e de diálogo com as comunidades para melhorar e ampliar as acções de comunicação sobre as mudanças climáticas.

Delso Cossa

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