A montanha e o regime

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Diz-se que “ao atingir certa idade, a águia enfrenta uma escolha cruel: continuar a viver com o bico gasto, as garras enfraquecidas e as penas pesadas — ou recolher-se à montanha, arrancar o que já não serve e suportar a dor da transformação”. A biologia pode contestar a literalidade dessa história, mas a metáfora continua poderosa. Sobreviver exige adaptação. E adaptação raramente é confortável.

Moçambique atravessa um desses momentos silenciosos em que a questão não é quem governa, mas como governa e até quando poderá governar da mesma maneira. O recente encontro da Comissão Técnica do Diálogo Nacional Inclusivo com os embaixadores da União Europeia trouxe à tona uma pergunta que muitos evitam formular: pode um diálogo ser verdadeiramente inclusivo se ignora as vozes que mobilizam a nova geração?

O embaixador Antonino Maggiore foi prudente. Reconheceu que o processo é moçambicano, mas sublinhou a importância de incluir Venâncio Mondlane. A observação não é ingerência da mão externa como diz o chavão oficial; é constatação política. Mondlane pode não integrar formalmente a arquitectura institucional do diálogo, mas tem se mostrado um interlocutor válido para uma franja expressiva da juventude moçambicana.

Ignorar um fenómeno não o dissolve.  Há regimes que acreditam que estabilidade significa imobilidade. Confundem permanência no poder com imunidade histórica. Mas a história ensina que os sistemas mais duradouros não são os mais rígidos; são os que sabem ajustar-se às mudanças geracionais sem colapsar.

A Frente de Libertação de Moçambique governa há meio século. É um feito político raro. Sobreviveu à guerra dos 16 anos, à transição multipartidária, a crises económicas e a tensões armadas. Essa longevidade demonstra capacidade de resiliência. Mas resiliência não é sinónimo de eternidade.

Quando um sistema começa a tratar divergência como ameaça e inclusão como fraqueza, inicia-se um processo subtil de erosão. Não se percebe no primeiro momento. Não há queda repentina. Há, antes, um afastamento progressivo entre governantes e governados.

Mondlane não é apenas um nome. É expressão destes novos tempos. Representa uma geração que comunica pelas redes socias, não compra discursos do tipo “a Renamo pilava crianças” e exige participação directa. Pode-se discordar da sua estratégia, questionar o seu estilo, criticar o seu discurso. Mas não se pode negar a sua capacidade de mobilização. A sua exclusão pode produzir dois efeitos: enfraquecer um actor ou transformá-lo em símbolo. A história recente mostra que, muitas vezes, o segundo cenário prevalece.

O diálogo nacional foi criado para construir consensos e reformas. Mas consensos não se constroem entre confortáveis; constroem-se entre diferentes relevantes. Se uma parte significativa da juventude se sente representada por uma figura que está fora da mesa, o diálogo corre o risco de parecer completo no papel e incompleto na realidade.

Governar é mais do que ganhar eleições. É gerir expectativas e reduzir tensões antes que se convertam em rupturas. Partilhar espaço político não significa abdicar do poder central. Significa reconhecer que o país é plural e que a estabilidade duradoura exige inclusão estratégica.

O maior perigo para sistemas envelhecidos não é a oposição externa; é a incapacidade interna de ouvir. A arrogância, essa tentação permanente do poder prolongado, corrói mais do que qualquer adversário. Moçambique tem recursos, território e energia humana suficientes para acomodar diferenças. O que muitas vezes falta não é espaço físico ou institucional — é disposição para partilhar protagonismo.

A metáfora da águia volta a impor-se. A ave que escolhe não mudar continua a voar por algum tempo. Mas cada voo torna-se mais curto, cada investida menos precisa. A recusa da transformação prolonga a agonia. O diálogo nacional pode ser a montanha onde o regime decide mudar de pele. Ou pode ser apenas um ritual que adia decisões difíceis. A escolha é política, mas as consequências serão históricas.

O destino de Venâncio Mondlane não depende apenas dele. Depende da forma como o sistema decide lidar com o fenómeno que ele representa. Integrá-lo como interlocutor ou empurrá-lo para fora do jogo. Quem não se adapta desaparece, não necessariamente por derrota imediata, mas por desgaste contínuo. A história costuma recompensar os que sabem quando mudar. E raramente absolve os que acreditam que quarenta ou cinquenta anos são garantia de eternidade. @Félix Filipe

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