Nacala merece mais do que promessas e voos inaugurais

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Há decisões políticas que merecem ser saudadas sem rodeios. A abertura da ligação aérea directa entre Nacala e Joanesburgo é uma dessas decisões. Num país onde o discurso do desenvolvimento tantas vezes se resume a promessas e inaugurações simbólicas, este voo representa um passo concreto para integrar o norte de Moçambique nos circuitos regionais de investimento, turismo e negócios. Não é apenas mais uma rota aérea: é uma porta que se abre para o mundo e que pode reposicionar Nacala no xadrez económico da região austral.

É justo reconhecer que esta ligação não surgiu por acaso. Houve trabalho político, persistência institucional e capacidade de diálogo. O governador provincial de Nampula teve um papel determinante para que esta rota se tornasse realidade, num contexto em que nem sempre é fácil convencer parceiros internacionais a apostar fora dos eixos tradicionais. A iniciativa deve ser saudada com clareza, porque sinaliza visão e compromisso com o crescimento económico da província.

Mas é precisamente por reconhecermos o mérito deste avanço que se impõe uma reflexão incómoda, porém necessária. Que cidade é esta que agora se liga directamente a um dos maiores centros económicos do continente? Que imagem encontrará quem aterrar em Nacala pela primeira vez, atraído por oportunidades de negócio, turismo ou investimento?

Falamos com conhecimento de causa e com a legitimidade de quem conheceu a cidade em outros tempos. Vivemos em Nacala durante três meses e meio, em 2003. Era uma cidade bonita, limpa, bem cuidada. Voltamos em 2011 e continuava a ser um mimo. Em Dezembro de 2025, regressamos com expectativa e até algum orgulho. Saímos profundamente abalados. A cidade que encontramos é quase irreconhecível.

Logo à entrada, o choque é imediato. A estrada está esburacadíssima, degradada, indigna de um dos principais corredores logísticos do país. Em 2003, naquela mesma entrada, erguiam-se grandes armazéns e fábricas que anunciavam um futuro próspero. Hoje, o cenário é de abandono: estruturas rebentadas, actividade a meio gás, um ar triste e pálido que contrasta com o potencial estratégico da cidade.

A estrada à esquerda, usada diariamente por camiões que descem ao porto, clama por uma reabilitação urgente. A via principal que dá acesso à baixa da cidade está no mesmo estado de abandono. Buracos, poeira, desordem. No porto, o retrato é ainda mais cruel. A rotunda de acesso é uma lástima. Camiões entram limpos e saem cobertos de matope, poças de água e lama, num símbolo perfeito de como deixámos degradar um dos maiores activos económicos de Moçambique.

Fala-se muito de turismo em Nacala, mas turismo sem cidade não existe. A picada que conduz à belíssima praia de Fernão Veloso era, há anos, um exemplo: alcatroada, organizada, segura. Hoje, restam buracos, poeira e caos. As casas que antes respeitavam uma distância razoável da estrada agora disputam espaço com os carros. Barracas, mercadinhos informais e construções improvisadas cresceram sem critério, sem fiscalização, sem Estado. A cidade expande-se ao sabor do acaso, como todas outras no país.

Na cidade baixa, a situação é desoladora. O saneamento é péssimo. Águas negras correm a céu aberto aqui e ali. Prédios coloniais, outrora bonitos e imponentes, parecem cair um pouco mais a cada dia, abandonados ao desleixo, à indiferença e à ausência de uma política urbana minimamente séria. A cidade alta transformou-se num enorme mercado informal sem regras, imundo, empoeirado, congestionado, onde a sobrevivência substituiu qualquer ideia de ordenamento ou dignidade urbana.

Mas talvez o mais doloroso seja a pobreza. Não a pobreza dos relatórios e estatísticas, mas aquela que se vê e se sente. A pobreza que dói, que humilha, que faz chorar. Crianças descalças, jovens sem horizonte, famílias inteiras presas a uma economia informal sem futuro. Como pode uma cidade com porto, aeroporto, zona económica especial e agora ligação directa a Joanesburgo conviver com níveis tão gritantes de exclusão social?

Nacala, hoje, não tem nada de “zona franca” para a maioria dos seus habitantes. A riqueza passa, circula, exporta-se, mas não fica. O desenvolvimento toca a cidade de raspão, sem se enraizar, sem transformar a vida quotidiana das pessoas.

É por isso que este editorial faz questão de separar as coisas. A ligação aérea é um mérito político claro, que deve ser reconhecido e elogiado. Mas esse mérito não pode servir de cortina de fumo para esconder o abandono urbano gritante da cidade. Um voo não reabilita estradas. Um anúncio não resolve saneamento. Uma rota internacional não substitui planeamento urbano, investimento público consistente e presença efectiva do Estado.

Se queremos investidores, turistas e parceiros internacionais, temos de ter coragem de olhar para a cidade real, não para a cidade dos discursos. Desenvolvimento exige mais do que boas intenções. Exige coragem política para enfrentar o caos urbano, ordenar o crescimento, disciplinar o comércio informal sem criminalizar a pobreza, reabilitar infra-estruturas e cuidar do património existente.

Somos rápidos a inaugurar, lentíssimos a manter. Bons a destruir o que foi construído, péssimos a cuidar do que temos. Nacala é hoje um espelho cruel dessa contradição nacional. O voo para Joanesburgo é um bom começo, um sinal certo, uma decisão acertada. Mas não pode ser o ponto final. Tem de ser o ponto de partida para uma intervenção séria, estruturada e urgente na cidade.

Porque Nacala merece mais. Merece dignidade urbana. Merece voltar a ser bonita. Merece que o desenvolvimento não passe apenas por cima dela, mas fique, transforme e inclua. Se este texto incomoda, ainda bem. É sinal de que Nacala ainda importa.  @NGANI, Editorial de 02/02/2026

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