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Opinião

Por que o FDEL é mais um fiasco?

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Na semana finda, o governo veio ao público prometer a duplicação do Fundo de Desenvolvimento Económico Local, FDEL. Passa de 824,6 milhões para 1,5 mil milhões de meticais em 2026. Um salto quântico de generosidade, digno de aplausos, caso a generosidade se medisse em papel-moeda colorido e não em criação de riqueza real. Afinal, dinheiro voa, mas fábricas, cooperativas e indústrias permanecem.

O anúncio foi feito com aquele sorriso institucional que tenta convencer-nos de que dar dinheiro a qualquer pessoa com boa intenção é o caminho para o desenvolvimento. E, na prática, é mais ou menos assim: o Estado despeja milhões nos municípios e distritos para financiar projectos de “geração de renda”, com especial atenção à juventude. Juventude, diz o governo, que precisa de um empurrãozinho para acreditar que vender sabonetes ou comprar e revender arroz é o ápice do empreendedorismo nacional.

Os números impressionam pela confusão. Só 20% dos projectos submetidos foram aprovados, porque, segundo o ministro da Planificação e Desenvolvimento, “descentralização é assim”. A frase tem aquele tom de filósofo frustrado de telenovela: “Há criatividade, e às vezes a criatividade é para aspectos positivos, mas às vezes a criatividade excede e resvala para outros aspectos.” Traduzindo: o dinheiro pode desaparecer por caminhos misteriosos, e nós devemos aplaudir porque, afinal, é descentralização.

O resto? Compra e venda de produtos básicos domina com 34% dos projectos, agricultura com 22%. Números que lembram que, mesmo quando se dá dinheiro a pessoas com intenção de criar riqueza, o resultado é… mais do mesmo. Não há indústrias, não há fábricas, não há transformação. É só uma roda-viva de compra e venda de arroz, sabão e tomates. E tudo bem, porque “o Estado vai dobrar o fundo”, promete o ministro, enquanto o país continua a sonhar com empregos que não surgem do nada.

Enquanto isso, a participação feminina é ridiculamente baixa: 22%. Os jovens, grupo-alvo prioritário, rondam 25%. Ou seja, mesmo quando o governo promete “empoderamento juvenil”, só um quarto dos jovens sequer concorre. Mas não se preocupe: a culpa não é deles, é da difusão do FDEL, garante o ministro da Juventude. Mais fundos, mais publicidade, mais esperança em notas de meticais — porque desenvolver a economia real é muito chato e dá trabalho.

Agora, vamos reflectir. Dar dinheiro a pessoas sem formação financeira, sem capacidade de gestão de negócios e sem infraestrutura produtiva é como jogar notas ao vento e esperar que cresçam árvores carregadas de empregos. É divertido na primeira semana, faz manchete, gera selfies com cheques, mas no fim do mês tudo volta à estaca zero. A economia não se constrói com meticais distribuídos; constrói-se com fábricas, cooperativas, empresas transformadoras, com políticas que incentivem o investimento, a inovação, a educação e o trabalho sério.

Olhemos para o mundo: China, Coreia do Sul, Alemanha, Japão… Nenhum deles avançou distribuindo dinheiro para quem nunca abriu uma conta bancária ou nunca ouviu falar de balanço patrimonial. Eles construíram estradas, escolas técnicas, indústrias, parques tecnológicos. Investiram em educação, tecnologia e exportação. Não imprimiram cédulas para jogar às pessoas e esperar que, magicamente, o país se desenvolvesse.

Mas cá em Moçambique, a lógica é simples: multiplicamos dinheiro e acreditamos que isso cria desenvolvimento. O FDEL é o melhor exemplo disso. Um fundo robusto, dizem, cheio de potencial. Um fundo que quase garante um cheque em branco para quem tiver coragem de preencher formulários e sonhar alto — desde que o sonho seja comprar e revender arroz ou sabão. Cooperativas, fábricas, incubadoras de inovação? Ah, isso é para os outros países. Aqui, a prioridade é fazer a foto do jovem com o cheque na mão e o slogan no peito: “FDEL muda vidas!”

Enquanto os milhões circulam, os problemas reais permanecem: desemprego, falta de indústria, economia dependente de importações, educação deficiente, infraestrutura precária. O dinheiro do FDEL aquece as mãos, mas não aquece o país. E a cada duplicação prometida, a ilusão cresce, mas o desenvolvimento não. É o famoso efeito placebo do Estado: todos acreditam que algo está a ser feito, mas, no fundo, nada muda.

E há criatividade, claro. O ministro nos lembra que a descentralização permite “exceder a criatividade e resvalar para outros aspectos”. Traduzindo: os milhões podem ser usados de formas inesperadas — em festas, transportes pessoais, até em churrascos comunitários — e ninguém no centro pode controlar. É descentralização, senhores! É liberdade! É empreendedorismo à moda de Moçambique: distribua-se dinheiro e observe-se o caos.

Mas é importante frisar: não é falta de boa vontade. Os gestores locais tentam, mexem, organizam reuniões, tomam notas, fazem listas… e no fim do dia, a riqueza continua concentrada nos mesmos lugares, os jovens continuam sem empregos, as mulheres continuam sub-representadas. E o FDEL serve como símbolo de uma política que confunde movimento com progresso.

Ah, e o mais divertido: o governo promete mobilizar parceiros internacionais para complementar o fundo. Porque, claro, não podemos confiar apenas no próprio dinheiro do Estado para criar desenvolvimento. Precisamos de ajuda externa para manter a ficção de que estamos a crescer. Enquanto isso, os exemplos de sucesso no mundo — países que investiram em indústria, educação e inovação — são ignorados. Aqui, basta imprimir cheques e distribuir sorrisos.

E a cereja do bolo? O FDEL não incentiva a sustentabilidade. Se o objectivo fosse criar riqueza duradoura, os fundos deveriam apoiar pequenas indústrias, cooperativas agrícolas de processamento, empresas de transformação de matérias-primas. Mas não. A lógica é simples: compre, venda, repita. E depois choramos quando o jovem empreendedor fecha a barraca ou quando o cheque evapora sem deixar rasto de desenvolvimento real.

Rindo-se do absurdo, percebemos que o FDEL é a quintessência do “jogo do papel”: todo mundo recebe uma parte, todos fingem progresso, mas ninguém constrói o país. É mais fácil distribuir dinheiro a pessoas sem ferramentas, sem educação financeira, sem capacidade de gestão, do que criar políticas estruturais que transformem a economia.

O sarcasmo chega ao auge quando vemos que o país anuncia a duplicação do fundo como grande feito. É como um mágico que promete dobrar a carta que você entregou e aplaude a si mesmo enquanto o público percebe que nada mudou. Meticais duplicados, sonhos intactos, desenvolvimento adiado.

E ainda assim, a propaganda insiste: “mais fundos, mais oportunidades, mais juventude a concorrer”. Mas competir para comprar e vender OMO e Rajah não é oportunidade, é sobrevivência temporária. A verdadeira oportunidade é transformar a economia, criar emprego real, investir em educação e tecnologia. O resto é entretenimento para a televisão estatal e selfies com cheques coloridos.

Portanto, caros leitores, a lição do FDEL é clara: distribuir dinheiro sem criar condições estruturais não cria desenvolvimento; apenas entretém. Rimos, fazemos memes, tiramos fotos com cheques, mas a economia continua a mesma. E o governo, como sempre, promete mais fundos, mais duplicações, mais criatividade resvalando para outros aspectos… enquanto o país continua a sonhar acordado.

Em conclusão, a política do FDEL é a prova viva de que dinheiro sozinho não constrói país. É preciso visão, investimento, educação, indústria e capacidade de transformar recursos em riqueza duradoura. O resto é circo, espectáculo, crónica do absurdo. E cá estamos nós, a rir, enquanto esperamos que um dia o desenvolvimento se manifeste para além das notas de meticais distribuídas.

O FDEL é, sem dúvida, um fiasco, um espectáculo de absurdos: oferece esperança em papel-moeda, ignora educação e infraestrutura, e transforma milhões em simples brindes de ilusão. Mas, se há algo que aprendemos com os países que avançaram, é que desenvolvimento real não se compra com cheques; constrói-se com trabalho, inovação e instituições capazes. E nisso, meus caros, estamos a anos-luz de distância.

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