Opinião
Editorial | A Geração Z não perdoa o abuso de poder
A imagem é eloquente: no Levy Mwanawasa Stadium, em Ndola, Zâmbia, onde habitualmente se joga futebol e se vibra com a festa popular, o actual presidente, Hakainde Hichilema, viu-se “escapando” da multidão hostil, após ter sido alvo de pedras atiradas em Chingola, também na província de Copperbelt, por cidadãos visivelmente enfurecidos. A popularidade que o trouxe ao poder, sob promessa de mudança e prosperidade, transformou-se em fadiga e braço de revolta pública.
Este episódio — violento, simbólico, revelador — não é apenas uma crise zambiana. É um sinal de alarme para toda a África: a geração emergente está farta dos discursos, exige resultados, não tolera mais governos onde a impunidade, o favoritismo e o atraso sejam moeda corrente. E os líderes africanos não têm escolha: ou aceleram o passo no progresso, ou serão simplesmente desalojados pela onda de mudança.
Durante décadas, o “acordo tácito” entre governantes e governados parecia consistir em tolerar corrupção, nepotismo, ineficiência, em troca de estabilidade e promessa de “amanhã melhor”. Mas esse pacto já não vigora com a força de outrora. A nova geração — a chamada Geração Z, nascida digital, conectada, imediatista — não aceita mais a promessa da “mudança” como procrastinação interminável. Eles querem resultados hoje.
Eles exigem empregos, educação funcional, transporte digno, habitação decente — não meros decretos ou cerimónias vazias. O caso da Zâmbia tornou-se exemplar: um presidente vindo de um partido de alternância, com mandato curto de ilusões, viu-se confrontado com a ira de uma juventude que percebeu — “Mudança?” — mas sem as mudanças no bolso, na vida, no quotidiano.
É relevante que a Zâmbia tenha um historial de alternância de poder, o que sempre se apresentou como o “modelo democrático” africano. Mas alternância por si só não é garantia de progresso. O facto de um governo ter chegado ao poder com promessas e ter falhado em concretizá-las transforma-se num combustível para a revolta. A nova geração percebe isso com clareza: não é apenas quem está no poder, mas o que realmente faz que importa.
Se os líderes africanos continuarem a ver a alternância como fim e não como meio, continuarão presos num ciclo de insatisfação. A nova geração não se contenta com a mudança de rostos: quer um novo contrato social, transparente, eficaz e mensurável. Caso contrário, vai impor a sua vontade — e já o está a fazer.
Vimos recentemente — e com impacto — como cidadãos, jovens, mobilizados, derrubaram líderes corruptos ou ineficazes em diferentes regiões. No Nepal, em Madagáscar, e mais próximo de nós, em Moçambique — com as eleições de 2024 — e mesmo na Tanzânia em 2025 — os ventos da mudança sopram forte.
A África “velha” — tolerante, complacente, onde a voz se apagava — está a dar lugar a uma África “activa”, exigente, criativa. Uma geração que não bebe álcool em excesso, que não busca escapismos tradicionais, mas foca-se em redes sociais, em empreendedorismo, em resultados rápidos e concretos. Ela não aguarda décadas por promessas. Ela cobra. Ela julga. Ela age.
Para os que hoje ocupam palácios de poder ou aspiram fazê-lo, as próximas linhas são um manual de sobrevivência política (e moral):
- Ouçam a nova geração: Está conectada, está informada, está farta da simbologia. Quer acessibilidades, quer infraestruturas, quer crescimento económico tangível, quer responsabilização.
- Parem com o nepotismo e o “amiguismo”: O velho modelo de favorecimentos, de “colocados” amigos ou familiares, está em colisão directa com a nova ética de mérito e transparência.
- Infraestrutura e serviço público: É com estradas boas, escolas eficazes, saúde funcional, serviços públicos rápidos e decentes que se reconquista a legitimidade.
- Emprego para jovens qualificados: Façam-nos parceiros, não meros beneficiários. A Geração Z tem ideias, vontade, criatividade — transformem-nos em vectores de desenvolvimento.
- Resultados visíveis, comunicação clara: Não basta dizer que se vai fazer. É preciso mostrar o que se fez, como se fez, quanto se fez e quando se vai fazer mais. A verificação social é imediata.
- Democracia real, não de fachada: Alternância existe para renovar, mas se após a alternância tudo continuar igual, a nova geração vai mais adiante, vai exigir novo ciclo — ou vai derrubar o vigente.
Se os governantes africanos pensarem que podem continuar com laxismo, vão-se enganar. As novas gerações não perdoam o que consideram abusos de poder: o abandono do serviço público, a apropriação indevida de bens públicos, os favores para uns à custa de muitos. O episódio na Zâmbia é o aviso: não foi um protesto isolado. Foi o sintoma.
A paciência da juventude acabou. A tolerância à mediocridade e ao atraso esgotou-se. Se os líderes continuarem a jogar com os interesses das pessoas, se o progresso real for negligenciado, a consequência é inevitável: rejeição política. E essa rejeição não virá apenas nas urnas — poderá chegar nas ruas, nas redes sociais, nas manifestações que o mundo verá.
África enfrenta hoje uma bifurcação histórica. De um lado, pode seguir o caminho da antiga retórica — promessas, elevação simbólica, lentidão na entrega. Do outro, pode abraçar a nova dinâmica — transparência, participação jovem, resultados rápidos, economia dinâmica, inovação.
A Geração Z está do lado deste segundo caminho. Eles não apenas querem protestar — querem construir. Querem startups, querem micro-empresas, querem TI, querem produção local, querem que África se reinvente. E não há desculpas para atrasos baseados em “problemas de legado” ou “ausência de recursos”. Os recursos estão, a vontade está, a conectividade está — agora é o saber fazer que está em questão.
Se um presidente, merecedor de elogios em tempos recentes, pode ver-se alvo de cólera numa província descontenta, o que dizer de milhões de cidadãos em 54 países que esperam, há anos, pela “mudança”? O aviso foi dado: a nova geração africana — esclarecida, criativa, imediatista — está em cena.
Para os líderes africanos: ou transformam o seu mandato em mudança visível, ou serão substituídos, não apenas em eleições, mas por um novo paradigma de exigência e cidadania. O futuro não espera — e esta geração Z africana sabe disso.
Não se trata apenas de vencer eleições: trata-se de merecer governar. Trata-se de provar, todos os dias, que o poder está a serviço do povo — não de si próprio. É esta a hora de acordar. É esta a hora de agir. É esta a hora de entregar.