Foi notícia numa das televisões nacionais: “criança amarrada pelo pai durante dois dias por ter urinado na cama”. Foi uma das informações mais chocantes da semana, por se tratar de um acto violento contra uma criança indefesa.
Estão de parabéns os vizinhos que agiram para libertar o menino das amarras do pai. Foi uma atitude exemplar, que demonstra espírito de vigilância e solidariedade no seio da comunidade. Entretanto, enquanto o vídeo-denúncia circulava, viam-se pessoas mais preocupadas em gravar imagens, enquanto o miúdo se contorcia de dor diante delas. O áudio do vídeo mostra claramente pessoas comentando que precisavam filmar por mais tempo para que as autoridades tivessem provas do que acontecera à criança. Enquanto a vítima clamava por socorro, ninguém ousou aproximar-se para aliviar a sua dor. Os “socorristas” continuaram a filmar, pedindo ao menino que continuasse a expor-se às câmaras.
Neste ponto, houve falta de sensibilidade por parte das pessoas que prestaram socorro. Se olharmos para o vídeo com um pouco mais de atenção, é possível perceber com nitidez o que aconteceu ao miúdo logo nos primeiros segundos. Assim, não havia necessidade de prolongar as filmagens. Em situações como esta, o socorro à vítima deve ser prioridade, sobretudo quando se trata de uma criança que esteve amarrada durante tanto tempo.
Não sabemos ao certo quanto tempo a criança permaneceu amarrada após a descoberta do caso, uma vez que, no vídeo, ela aparece no pátio a ser exibida ao público. Este aspecto revela que alguém entrou na residência, retirou a criança e, posteriormente, conduziu-a ao pátio ainda amarrada.
Todo este processo pode ter prolongado o sofrimento da criança, cujo único “pecado” foi ter urinado na cama. Por isso, com muita dor, peço que, das próximas vezes, a vítima seja socorrida de forma imediata.
Infelizmente, a criança mostrada no noticiário pode não ser a única a sofrer violência por fazer xixi na cama. Talvez existam outras crianças a serem torturadas pelo mesmo motivo. Assim sendo, seria importante ouvir um especialista que lide com crianças que fazem xixi na cama, como um uropediatra. Trata-se de um profissional de saúde capaz de oferecer explicações mais detalhadas sobre o assunto.
Para terminar, seria importante que os profissionais da área da saúde organizassem palestras sobre o tema “xixi na cama”, porque, havendo informação adequada e acessível, nenhuma criança deveria ser violentada por causa disso. Juleca Paposseco

