Sociedade
Roadshows e Feiras de Saúde enfrentam aborto inseguro e violência de género em Moçambique
Em resposta às persistentes lacunas no acesso a serviços de saúde sexual e reprodutiva, o Ipas Moçambique, em parceria com o Ministério da Saúde, a Associação Kutenga e a Coalizão, está a implementar uma série de Roadshows e Feiras de Saúde nas províncias de Niassa, Cabo Delgado, Zambézia e Nampula. A iniciativa, financiada pela Embaixada da Suécia em Moçambique, visa levar informação, serviços e encaminhamentos às comunidades mais vulneráveis do país.
Em Nampula, a intervenção está a ser operacionalizada pela Agência de Comunicação Info-Media e pela Wona Consultoria e Serviços, cobrindo 18 distritos, com actividades educativas, culturais e serviços de saúde gratuitos.
Os eventos ocorrem num contexto em que as dificuldades de acesso à informação e aos serviços de planeamento familiar continuam a expor mulheres e raparigas a riscos graves. Em Moçambique, só no primeiro semestre de 2025 foram registados mais de 49 000 casos de aborto sem condições de segurança, sendo uma das principais causas de admissão de mulheres nos hospitais e responsável por cerca de 8 % das mortes maternas directas, de acordo com autoridades de saúde.
Além disso, o fenómeno da Violência Baseada no Género (VBG) persiste como um grave problema de saúde pública e direitos humanos: em 2024, o país registou mais de 20 000 casos de VBG, com a maioria das vítimas sendo mulheres e meninas.
Para Constantino António, Secretário Permanente de Nacala-Velha, as feiras e roadshows reduzem distâncias físicas e informativas entre as comunidades e os serviços de saúde.
“Este evento aproxima os serviços de saúde da população e reforça o compromisso com a saúde sexual e reprodutiva, com a protecção dos direitos das mulheres e raparigas e com a prevenção da Violência Baseada no Género, que continua a afectar muitas famílias nas nossas comunidades.”
António destacou ainda que “a saúde começa com informação” — uma mensagem central das actividades, que incluem brigadas móveis, palestras, aconselhamento e encaminhamentos para unidades sanitárias.
Segundo Rosa Nota, Oficial de Engajamento Comunitário de Nacala-Porto, os Roadshows usam música, jogos e teatro para tornar as informações sobre planeamento familiar e prevenção do aborto inseguro mais acessíveis e atractivas, especialmente para jovens e populações rurais sem acesso regular a serviços de saúde.
Na mesma linha, Sheila Matano, enfermeira do sector de Saúde Materno-Infantil em Nacala-Velha, refere que muitas mulheres chegam às unidades sanitárias tarde ou em condições complicadas. “Há muitos casos em que maridos proíbem o planeamento familiar. Este tipo de evento ajuda a disseminar informações essenciais sobre planeamento familiar — algo que ainda acontece raramente por aqui, onde se registam muitos casos de meninas com sequelas graves de abortos inseguros que deram errado.”
Vozes da comunidade
O impacto das mensagens também se faz sentir entre a população comum. Delfino Abacar, mototaxista que assistiu ao Roadshow no mercado municipal de Monapo, foi particularmente tocado pela discussão sobre violência doméstica. “Violência não é só bater nas nossas parceiras — é também insultar, desprezar e desvalorizar,” comentou, sublinhando que recorrer à violência não resolve problemas familiares.
Para Elisabete Tomé, de Monapo, para além de ampliar o alcance das mensagens, é crucial que os profissionais de saúde tratem as pacientes com empatia e sigilo. “Apelo aos agentes de saúde para terem mais empatia com as raparigas que visitam as unidades sanitárias. Muitas vezes o atendimento é insensível e isso desencoraja a adesão aos serviços.”
Os Roadshows e Feiras de Saúde em Nampula continuam esta quinta-feira em simultâneo em Muecate e Angoche, seguindo para Ribáuè e Malema na sexta-feira e sábado, respectivamente.
O Ipas Moçambique reforça que todas as pessoas têm o direito de tomar decisões fundamentais sobre os seus corpos e a própria saúde, um princípio que norteia o trabalho da organização desde 2018 em várias províncias, com apoio financeiro de parceiros internacionais como a SIDA, GAC e Fundação Bergstrom.