Na semana finda, foi também notícia que o Movimento VAMOS – Valentes Moçambicanos se encontra em fase avançada de preparação de uma petição visando o cancelamento do registo do partido Anamola e a sua exclusão de futuros processos eleitorais em Moçambique. A iniciativa, segundo o comunicado tornado público, assenta em alegadas práticas que o movimento considera incompatíveis com o Estado de Direito Democrático, incluindo a promoção da violência e a desestabilização da ordem pública.
Até aqui, dir-se-ia tratar-se de mais um episódio do já desgastado teatro político moze, onde incriminações graves são atiradas à praça pública com a ligeireza de quem lança acusações à toa. Mas, como frequentemente acontece em Moçambique, o enredo torna-se mais interessante quando se tenta perceber quem escreve o guião por detrás do palco.
E é justamente nesse ponto onde surge um nome que, longe de ser novo, carrega consigo um lastro de controvérsias, ambiguidades e uma notável capacidade de sobrevivência política: Yaqub Sibindy. Consta, e sublinhe-se o termo, porque na política moçambicana a fronteira entre o que se sabe e o que se sussurra é muitas vezes deliberadamente turva, que Sibindy é um dos rostos por detrás desta investida contra o Anamola.
Sibindy não é um novato. Pelo contrário, é uma figura que atravessa a história recente do pluralismo político moçambicano desde os seus primórdios. Nos anos 90, na aurora da democracia multipartidária, chegou a dar sinais de que poderia ser um actor político relevante. As eleições de 1994 registaram um desempenho surpreendente do seu Partido Independente de Moçambique (PIMO).
Porém, mesmo esse momento fundador carrega uma narrativa que roça o insólito: há quem sustente que parte significativa dos votos que conseguiu, se deveu a uma confusão dos eleitores, que associaram a imagem de Sibindy, adornado com turbante, à figura feminina da então primeira-dama. Se verdadeira ou não, a história tornou-se parte do folclore político nacional, e talvez diga mais sobre a inocência do eleitorado da época do que sobre o mérito do candidato.
Desde então, em vez de consolidar uma trajectória política baseada em ideias, propostas e consistência, Sibindy parece ter optado por um caminho errático, marcado por intervenções ruidosas, ataques constantes às principais figuras da oposição e uma impressionante capacidade de reposicionamento conforme os ventos políticos.
Um dos capítulos mais elucidativos desse percurso foi a sua relação com o falecido líder da Renamo, Afonso Dhlakama, a quem diz ser seu tio. Houve um tempo em que Sibindy se destacou como um dos seus mais ferozes críticos, recorrendo à imprensa para o atacar de forma reiterada e, por vezes, com uma linguagem que ultrapassava os limites do debate político civilizado.
Em 2007, por exemplo, alinhou-se com o seu chamado Bloco da “Oposição Construtiva” para exigir que Dhlakama fosse responsabilizado judicialmente por declarações consideradas incendiárias. Na altura, Sibindy não hesitou em afirmar que o líder da Renamo deveria ser levado “à barra do tribunal”, acusando-o de se comportar como alguém acima da lei.
O que causa estranheza é a metamorfose que se seguiu. Com a morte de Dhlakama, Sibindy surgiu em cena com um discurso de engrandecimento da figura que antes odiava e atacava, posicionando-se quase como um guardião da sua memória política. Chegou mesmo a ser acusado por familiares do falecido líder de tentar instrumentalizar o seu nome para reabilitar a própria imagem política. A acusação, feita publicamente, de que seria um “político falido” em busca de relevância não foi acompanhada, que se saiba, de uma refutação convincente.
Esse hábito — atacar, deslegitimar, e posteriormente reconfigurar o discurso conforme a conveniência — repete-se agora com outra figura central da oposição: Venâncio Mondlane. Nos últimos tempos, Sibindy tem-se notabilizado por uma série de investidas verbais e escritas contra Mondlane, disseminadas diariamente nas suas redes sociais, num registo que pende mais ao ataque pessoal.
Numa democracia saudável, figuras públicas devem ser escrutinadas. Mas o que chama atenção em Sibindy contra Mondlane é a persistência, a intensidade e, sobretudo, a direcção dessas críticas. Por que razão um líder de um partido que se assume como oposição concentra tanto da sua energia a atacar outras figuras da oposição, sobretudo as com maior projecção, enquanto o partido no poder parece, muitas vezes, passar incólume ao mesmo escrutínio?
Qual é, afinal, a agenda de Yaqub Sibindy? Age como líder de uma força política autónoma, com um projecto claro para o país, ou como um actor periférico que gravita em torno do poder, intervindo pontualmente para fragmentar e enfraquecer potenciais alternativas?
A alegada ligação entre Sibindy e a iniciativa do VAMOS reforça essas dúvidas. Se, de facto, estiver envolvido na tentativa de ilegalização de um partido concorrente, isso coloca-o numa posição paradoxal: a de um político que, em vez de disputar o poder no campo das ideias e do voto, recorre a expedientes que visam excluir adversários do jogo democrático. Mesmo que revestida de argumentos legais, uma tal iniciativa exige um escrutínio rigoroso das motivações que a sustentam.
Não se trata de defender o Anamola, nem de absolver qualquer partido de eventuais responsabilidades. Trata-se, isso sim, de defender um princípio: em democracia, a divergência resolve-se nas urnas, não nos atalhos administrativos ou judiciais, salvo em casos extremos e inequivocamente comprovados.
O percurso de Sibindy, tal como aqui descrito com base em episódios públicos e amplamente reportados, sugere uma relação problemática com esse princípio. Ao longo dos anos, a sua actuação tem contribuído mais para a confusão do espaço político do que para o seu esclarecimento. E num país onde a democracia ainda se consolida, figuras assim não são apenas irrelevantes, são potencialmente prejudiciais.
E é por isso que episódios como o da petição do VAMOS devem ser analisados com cautela, espírito crítico e, acima de tudo, memória. Porque, em política, quem esquece o passado corre o risco de legitimar, no presente, os mesmos vícios que comprometeram o país. @Félix Filipe, Crónica do Absurdo, JornalNGANI200326

