Morrer a dar vida: A tragédia silenciosa e recorrente no Hospital Provincial de Lichinga

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A morte da jornalista Marisa Agostinho, aos 30 anos, na madrugada de 3 de Maio, na cidade de Lichinga, em consequência de complicações pós-parto, não pode ser lida como um episódio isolado, nem como uma fatalidade clínica inevitável. Ela inscreve-se num padrão antigo, persistente e amplamente documentado de mortalidade materna que, há pelo menos duas décadas, tem vindo a ser reportado, denunciado e discutido sem que, à vista pública, tenham ocorrido mudanças estruturais capazes de inverter o cenário.

A perda de uma jovem profissional, activa e reconhecida no seu meio, devolve ao debate público uma realidade que, apesar de recorrente, raramente mobiliza respostas proporcionais à sua gravidade: mulheres continuam a morrer durante ou após o parto em unidades sanitárias que deveriam garantir exactamente o contrário, a preservação da vida.

Os registos disponíveis ao longo dos últimos anos mostram que este não é um problema novo nem inesperado. Em 2016, dados oficiais apontavam para a morte de 28 mulheres em cerca de 12.800 partos institucionais na província do Niassa. No ano seguinte, segundo informações apresentadas por responsáveis do sector da saúde em fóruns públicos, o número de mortes maternas na província atingiu 73 casos, muitos dos quais associados a complicações durante ou após o parto, incluindo situações envolvendo adolescentes.

Em 2018, voltaram a ser reportadas mais de duas dezenas de mortes de mulheres grávidas nos serviços de ginecologia e obstetrícia do Hospital Provincial de Lichinga, com explicações frequentemente associadas a factores como chegada tardia às unidades sanitárias, gravidezes precoces ou condições clínicas pré-existentes. Estes elementos ajudam a compor um quadro complexo, onde factores sociais, culturais e estruturais se cruzam, mas também revelam a persistência de um problema que, apesar de reconhecido, continua longe de ser resolvido.

A gravidade da situação levou, em 2019, a manifestações públicas na cidade de Lichinga, onde membros da sociedade civil, activistas e cidadãos saíram às ruas para expressar preocupação com o número de mortes registadas na maternidade do principal hospital da província. Cartazes com mensagens de indignação e apelos por melhorias nos serviços de saúde evidenciavam um nível de exaustão social perante um fenómeno que já não era percebido como episódico, mas sim como recorrente.

As autoridades, na altura, reconheceram a necessidade de averiguações e chegaram a anunciar processos de inspecção para apurar as causas das mortes, frequentemente descritas de forma genérica como “complicações de parto”. Contudo, o debate público sobre os resultados dessas averiguações e, sobretudo, sobre as medidas concretas adoptadas posteriormente, foi-se dissipando com o tempo, sem que a percepção de risco tenha desaparecido do imaginário colectivo.

É neste contexto que a morte de Marisa Agostinho ganha um significado que ultrapassa a dimensão individual. A sua trajectória profissional, iniciada em 2015 na Rádio Moçambique, onde se destacou como locutora e repórter, sobretudo na área desportiva, tornou-a uma figura conhecida para muitos ouvintes da província do Niassa. A sua morte coloca novamente em evidência as fragilidades de um sistema que, apesar dos avanços registados no país em diferentes áreas da saúde, continua a enfrentar desafios significativos no que diz respeito à saúde materna.

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  • Mariza Agostinho

Importa sublinhar, com rigor e responsabilidade, que cada caso clínico possui especificidades próprias e que a determinação exacta das causas de morte requer análises técnicas detalhadas; no entanto, a repetição de ocorrências semelhantes ao longo dos anos levanta questões legítimas sobre a capacidade de resposta das unidades sanitárias, a disponibilidade de recursos humanos e materiais e a eficácia dos mecanismos de prevenção e acompanhamento pré e pós-natal.

A mortalidade materna é um dos indicadores mais sensíveis do funcionamento de um sistema de saúde, e a sua redução tem sido, ao longo das últimas décadas, uma prioridade global, associada a compromissos internacionais assumidos por diversos países, incluindo Moçambique.

Houve progressos, mas a persistência de casos como os registados no Niassa demonstra que esses avanços não são uniformes e que existem assimetrias regionais que exigem atenção específica. Questões como o acesso atempado aos serviços de saúde, a qualidade do atendimento, a disponibilidade de equipamentos essenciais, o número e a qualificação dos profissionais de saúde, bem como factores socioculturais que influenciam o recurso aos cuidados médicos, continuam a desempenhar um papel determinante.

O país não parte do zero. Há conhecimento acumulado, há experiências anteriores, há alertas feitos ao longo dos anos. O que parece faltar, à vista dos resultados, é a capacidade de transformar esse conhecimento em mudanças estruturais duradouras. A morte de Marisa Agostinho, pela sua visibilidade e pelo contexto em que ocorre, recorda que o tempo das explicações genéricas pode já não ser suficiente.

A sociedade espera respostas mais concretas, mais consistentes e, sobretudo, mais eficazes. Porque, num sistema de saúde que funcione de forma adequada, dar à luz não deve representar um risco de vida. Quando esse risco persiste de forma reiterada ao longo de anos, deixa de ser apenas um problema técnico e passa a ser uma questão que interpela directamente as prioridades, as escolhas e a responsabilidade de quem tem o dever de garantir que a vida seja protegida.

Editorial, Jornal NGANI, 04 de Maio de 2026

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