A surpreendente heresia de Silva Livone

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Acompanhamo-lo desde os seus primórdios como Chefe da Organização da Juventude Moçambicana (OJM). Mas nunca o levámos a sério. Parecia-nos apenas mais um pequeno arauto do sistema, dado às exuberâncias da retórica e às facilidades do discurso. Por acaso a política moçambicana produz sempre essas figuras aos magotes e, não raras vezes, acaba por tragá-las, convertendo-as em administradores obedientes de rotina.

Mas, de uns tempos para cá, Silva Livone tem-nos obrigado a rever os nossos juízos.

Não sabemos se fala por convicção profunda ou se são apenas palavras ao vento, que o tempo se encarregará de desmentir. Nunca privámos com ele. Julgamo-lo apenas pelas posições públicas que nos chegam através da imprensa. E, vistas em conjunto, elas parecem revelar um homem inconformado com a nossa miséria nacional e com esse espírito de resignação e pequenez que nos têm sido imposto pelo regime como filosofia de Estado.

Já vimos jovens promissores converterem-se em burocratas respeitáveis, mas intelectualmente anémicos. Já assistimos a revolucionários de ocasião, outrora inflamados, transformarem-se em simples caixas de ressonância do status quo. O caso de Régio Conrado, antigo comunista militante nos tempos da UEM e hoje zeloso defensor do capitalismo selvagem e das nossas mediocridades colectivas, é apenas um entre tantos. Por isso, nunca reservámos a Silva Livone um entusiasmo prematuro.

Mas houve um momento em que a nossa atenção mudou de natureza.

Não foi por exemplo, quando apertou os operadores da caça no Niassa. Nem quando enfrentou os revendedores ilegais de combustível. Nem sequer quando expôs as fragilidades do sistema nacional de saúde. Não foi quando disse que jovens não devem ser obrigados a pagar por vaga de emprego, nem quando pressionou a Mozambique Leaf Tobacco a comprar toda produção dos camponeses no Niassa

Tudo isso, sendo meritório, cabia ainda no domínio dos actos de governação.

O que verdadeiramente nos despertou foi quando decidiu tocar numa das mais antigas patologias da nossa vida pública que é a tentação, nunca escrita, mas praticada como Lei, de confundir partido, Governo e Estado.

Foi em Chimbunila, no Niassa, a propósito do Fundo de Desenvolvimento Económico Local. Ali, Silva Livone disse algo que merece ser inscrito nos anais da sinceridade política. Denunciou a fabricação de projectos, os falsos Conselhos Consultivos e a tendência de aprovar os projectos dos filhos, das namoradas e amantes, das esposas, dos irmãos e dos camaradas, enquanto a população permanece do lado de fora. E rematou com uma frase aparentemente simples, mas arrasadora na sua profundidade republicana: “Este país é de todos”.

Muitos ouviram apenas uma frase. No NGANI, ouvimos algo mais profundo. Ouvimos um dirigente formado nas escolas da própria Frelimo a recordar uma verdade elementar que, entre nós, parece ter adquirido contornos subversivos: a cidadania não pode depender da filiação partidária, e a divergência não transforma ninguém em inimigo da pátria. E ninguém deve ser morto por isso como temos visto.

Talvez por isso as suas palavras tenham causado tamanho impacto. Não porque tenham descoberto a pólvora. Mas porque, em Moçambique, o óbvio tornou-se revolucionário.

Convenhamos: habituámo-nos a uma estranha espécie de nacionalistas de ocasião, desses que confundem amor à pátria com amor às estruturas e lealdade no partido, com devoção quase religiosa. Por isso, não deixa de ser uma ironia das circunstâncias que um quadro saído da OJM venha recordar uma verdade que devia ser banal, a de que Moçambique é demasiado grande para caber em qualquer organização, por mais gloriosa que seja a sua história.

Naturalmente, ninguém deve ser canonizado em vida. O poder possui uma extraordinária capacidade de domesticar espíritos inquietos. A história política africana, aliás, está cheia de homens que começaram como promessas e terminaram como meros administradores do hábito. Até aqui, porém, o jovem Livone tem caminhado bem.

Por isso, a saudação que hoje lhe dirigimos não constitui um cheque em branco. É apenas o reconhecimento de uma virtude cada vez mais rara entre nós, a de dizer certas verdades em voz alta, sobretudo quando seria mais cómodo refugiar-se nas conveniências do silêncio.

Se Silva Livone acredita realmente em tudo aquilo que diz, o tempo tratará de confirmá-lo. Se for apenas retórica, a realidade encarregar-se-á de desmontar a personagem.

Mas, até lá, é justo reconhecer que, no meio de tantos gestores do conformismo e de tantos nacionalistas de circunstância, Livone parece pertencer a uma espécie em vias de extinção, que é a dos homens que ainda acreditam que a pátria é maior do que os interesses imediatos e que a República deve ser suficientemente ampla para acolher até aqueles que dela discordam. Tem sido um bom dirigente. Damos-lhe nota dez. Editorial, Jornal NGANI, 18/06/2026

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