A dimensão da despedida prestada ao artista, ilustrador e desenhador gráfico Justino Cardoso está a suscitar questionamentos sobre a forma como Moçambique reconhece os seus artistas e preserva a memória daqueles que contribuíram para a construção da sua identidade cultural.
A questão é levantada pela jornalista Rosa Inguane, num texto de opinião publicado na edição n.º 5170 do Wamphula Fax, na sequência do velório de Justino Cardoso, realizado na terça-feira, 18 de Agosto, na Capela do Hospital Central de Nampula.
Para Inguane, a cerimónia, embora tenha reunido cidadãos, governantes, jornalistas e artistas, não terá correspondido à dimensão do percurso artístico e intelectual de Cardoso. A jornalista questiona, por isso, se o artista “não merecia uma homenagem mais robusta”, classificando-o como um “Gigante da intelectualidade moçambicana”.
Na sua reflexão, destaca o contributo de Justino Cardoso para as artes gráficas e para a cultura moçambicana, particularmente na representação da história, das pessoas e das vivências da província de Nampula. O seu trabalho, argumenta, ultrapassou a dimensão estética, constituindo também uma forma de registar e preservar elementos da memória colectiva.

É neste contexto que Inguane questiona a escolha da Capela do Hospital Central de Nampula para a realização do velório. Na sua perspectiva, o Museu de Etnologia de Nampula poderia ter oferecido um espaço mais simbólico para a despedida, tendo em conta a ligação do artista à instituição e a existência de obras suas que continuam a preservar parte da sua trajectória.
“Estou chocada com este descaso”, escreve a jornalista, numa passagem que sintetiza a sua inquietação não apenas com a cerimónia, mas com o tratamento dado à memória de figuras que deixaram uma marca no património cultural do país.
A reflexão coloca, assim, uma questão que vai além da despedida de Justino Cardoso: o reconhecimento dos artistas moçambicanos acontece quando ainda estão vivos ou apenas quando já não podem receber a homenagem?
Para Rosa Inguane, a memória de um artista não deve começar a ser valorizada no momento da sua morte. O legado precisa de ser reconhecido, documentado e preservado enquanto permanece vivo na sociedade. “A morte não pode ser o fim da memória!”, conclui a jornalista. Redacção
