Enquanto Malawi colhe milho, Moçambique continua a colher conferências

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Há um paradoxo no actual debate sobre agricultura em Moçambique. O país possui 36 milhões de hectares em terras aráveis, rios abundantes, milhões de camponeses experientes e um clima que permite produzir quase tudo. Ainda assim, continuamos dependentes de importações alimentares, de ajuda humanitária em períodos de seca e de discursos recorrentes sobre “potencial agrícola”. O problema já não é falta de potencial. É falta de decisão estratégica.

A notícia publicada no Jornal NGANI sobre o reconhecimento do Governo de que apenas 0,6% dos agricultores têm acesso ao crédito formal merece aplausos pela honestidade. Admitir o problema é sempre melhor do que escondê-lo debaixo do tapete estatístico. Contudo, talvez seja necessário dizer, com respeito institucional e espírito construtivo, que o Governo pode estar a atacar a fome pelo lado errado da equação.

O Ministério da Agricultura, Ambiente e Pescas apresentou, durante o FORIN 2026, realizado em Lichinga, uma impressionante lista de fundos, linhas de financiamento, programas de relançamento, mecanismos de inclusão financeira e créditos bonificados. Os números são gigantescos: milhões e milhões de dólares circulam em apresentações técnicas, fóruns e comunicados. Será que o pequeno camponês moçambicano precisa primeiro de crédito bancário ou precisa, antes de tudo, de fertilizante acessível?

A resposta talvez esteja a acontecer diante dos nossos olhos, do outro lado da fronteira.

O Malawi, um país frequentemente tratado com condescendência pelos analistas regionais, fez algo que muitos economistas ortodoxos consideravam quase heresia. Decidiu subsidiar fertilizantes para pequenos agricultores. E os resultados foram tão evidentes que até o Banco Mundial, que inicialmente torcia o nariz à ideia, acabou por apoiar financeiramente o programa. Ironias da história económica africana.

O chamado Farm Input Subsidy Program (FISP), posteriormente transformado no Affordable Inputs Program (AIP), permitiu que milhões de pequenos agricultores malawianos tivessem acesso a fertilizantes e sementes melhoradas a preços drasticamente reduzidos. O Governo chegou a suportar cerca de 80% do custo dos insumos. O resultado? Aumento da produtividade do milho, maior segurança alimentar e redução substancial da dependência de importação de alimentos.

O mais curioso, e talvez mais embaraçoso para Moçambique, é que parte do fertilizante utilizado no Malawi passa por portos moçambicanos e alguma soja e milho produzidos graças a esses fertilizantes acabam depois por abastecer mercados moçambicanos. Em outras palavras: ajudamos logisticamente o sucesso agrícola do Malawi enquanto permanecemos presos ao discurso eterno do “acesso ao crédito”.

É claro que o crédito agrícola tem importância. Nenhum sector moderno cresce sem financiamento. Mas há uma diferença fundamental entre crédito produtivo e sobrevivência produtiva. O pequeno camponês moçambicano médio não está a pedir financiamento para comprar drones agrícolas, sistemas sofisticados de irrigação ou tractores de última geração. Muitas vezes, ele precisa apenas de solo fértil, sementes de qualidade e fertilizante suficiente para transformar uma colheita de subsistência numa colheita comercializável.

O crédito, por si só, não cria produtividade. Apenas financia possibilidades. Se o solo continua pobre, se as sementes são frágeis e se o camponês permanece vulnerável às mudanças climáticas, o empréstimo transforma-se facilmente numa armadilha de endividamento rural. Não por acaso, os bancos consideram a agricultura um sector de alto risco. E têm razão. Emprestar dinheiro a um camponês sem garantir produtividade mínima é quase como financiar uma lotaria dependente da chuva.

O fertilizante, por outro lado, tem um efeito mais imediato e estrutural. A experiência do Malawi demonstrou que o aumento do uso de fertilizantes esteve directamente associado ao crescimento da produtividade do milho. Estudos mostraram ganhos significativos de rendimento por hectare, especialmente quando combinados com sementes híbridas melhoradas.

A Etiópia seguiu caminho semelhante, apostando fortemente na expansão do acesso a fertilizantes e assistência técnica agrícola. O resultado foi uma transformação gradual da produtividade rural e maior capacidade de resistência a crises alimentares. O Ruanda, outro exemplo africano relevante, investiu na intensificação agrícola baseada em insumos, irrigação e organização de cooperativas, conseguindo reduzir drasticamente a fome em várias regiões.

Moçambique, entretanto, continua excessivamente apaixonado por fóruns, programas e linhas de financiamento que, embora importantes no papel, raramente alteram o quotidiano do camponês em Mecanhelas, Murrupula, Angónia, Gurué ou Chokwè.

Mas é preciso cautela e honestidade intelectual: fertilizantes não são solução mágica. Existem riscos reais. O uso excessivo ou inadequado pode degradar solos, contaminar água e criar dependência química da terra. O Malawi, inclusive, enfrentou críticas relacionadas aos custos elevados do programa e aos problemas de distribuição, corrupção e favorecimento político. Além disso, a monocultura excessiva de milho trouxe preocupações sobre diversidade agrícola e vulnerabilidade climática.

Por isso, o debate sério não deve ser “fertilizantes ou crédito”. Deve ser, qual é a prioridade estratégica para um país que ainda luta contra a fome?

Subsidiar fertilizantes não significa abandonar o mercado. Significa reconhecer que a agricultura familiar africana não pode competir em igualdade de circunstâncias com sistemas agrícolas fortemente subsidiados no resto do mundo. Os Estados Unidos subsidiam agricultores. A União Europeia subsidia agricultores. A Índia subsidia fertilizantes. A China subsidia fertilizantes. O Malawi subsidia fertilizantes. Mas em África, muitas vezes, o subsídio é tratado como pecado económico apenas quando beneficia pobres rurais.

Há ainda um aspecto psicológico frequentemente ignorado pelos tecnocratas. O pequeno agricultor que consegue finalmente colher excedentes passa a ter capacidade real de entrar no sistema financeiro formal. A produtividade cria confiança. E a confiança reduz risco bancário. Ou seja, talvez o melhor programa de inclusão financeira rural seja, paradoxalmente, um programa agressivo de aumento de produtividade agrícola. O Governo moçambicano merece reconhecimento por colocar a agricultura no centro do discurso económico. Mas talvez esteja na hora de abandonar a ilusão de que a solução para a fome virá apenas de fundos milionários, mecanismos financeiros sofisticados e relatórios cheios de siglas. A fome raramente é derrotada em salas de conferência; normalmente, ela é derrotada no campo, entre sementes, chuva e fertilizantes.

Editorial, Jornal NGANI

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