A cidade da Beira voltou a ser palco de um daqueles momentos raros em que a política moçambicana parece respirar novos ares. O nascimento oficial do Anamola — Aliança Nacional por um Moçambique Livre e Autónomo — arrastou multidões, mobilizou corações e fez pulsar uma esperança quase esquecida: a possibilidade real de uma alternativa ao poder absoluto da Frelimo.
As imagens vindas da Manga — Passagem de Nível — não deixam dúvidas: milhares de jovens vibraram, cantaram, dançaram e ergueram os punhos ao ouvir Venâncio Mondlane proclamar “basta de roubo” e “basta de escravidão”. Foi um espectáculo de euforia popular que muitos já consideram um marco na história da oposição.
Mas, como NGANI, o nosso papel não é apenas amplificar a emoção do momento. É preciso temperar a euforia com o realismo cru da política moçambicana. E a verdade é que o caminho do Anamola está apenas a começar — e será longo, sinuoso e cheio de armadilhas.
É fundamental lembrar que a Frelimo não é apenas um partido político. É uma máquina tentacular que há 50 anos se confunde com o próprio Estado. A Frelimo controla a Comissão Nacional de Eleições (CNE) e o Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE), que manipulam apuramentos eleitorais; domina o Conselho Constitucional (CC), que homologa fraudes; orienta as Forças de Defesa e Segurança, que reprimem protestos com balas verdadeiras; controla a Electricidade de Moçambique, usada para “apagões selectivos” em dias de votação; controla as operadoras de telefonia móvel, que desligam a internet nos dias de contagem dos votos; e influencia toda uma teia de instituições públicas que, em vez de servir o povo, servem a perpetuação do poder.
É nesta realidade que o Anamola terá de lutar. Não basta mobilizar multidões. Não basta cantar “o povo é quem manda”. A Frelimo não entrega o poder por via de um simples processo eleitoral. A história dos últimos escrutínios, de 1999 a 2024, mostra-o de forma clara: fraude sistemática, manipulação dos cadernos, urnas desaparecidas, boletins pré-preenchidos, e uma repressão sangrenta contra quem ousa reclamar.
É por isso que a euforia da Beira, embora compreensível, deve ser acompanhada da consciência de que os adversários não dormem. A Frelimo prepara-se sempre com antecedência: infiltra, divide, reprime e compra consciências.
Outra lição da história é que nenhum partido da oposição moçambicana escapou às infiltrações do regime. A Renamo foi, durante décadas, corroída por dissidências fabricadas. O MDM nasceu como esperança, mas rapidamente foi dividido e enfraquecido por infiltrações e lutas internas. O Podemos, fundado com discurso reformista, acabou refém da traição do iscariotes Albino Forquilha, que muitos acusam de vender a alma ao regime.
O Anamola não será excepção. Os aplausos da multidão escondem também a presença dos que entram para destruir por dentro. Gente que se filia apenas para espiar, sabotar, criar facções ou neutralizar Mondlane quando a luta apertar. É por isso que o partido precisa de vigilância redobrada.
Neste editorial aconselhamos: recebam todos, mas examinem cada um. Abertura é sinal de força, mas ingenuidade pode ser fatal. O Anamola deve apostar sobretudo em gente nova, competente, anónima, mas acima de tudo fiel ao projecto. A história mostra que as figuras recicladas da política tendem a ser as primeiras a vender-se ao melhor comprador.
Nenhum partido sobrevive apenas de discursos. É preciso estrutura nacional, comités de base, delegações em cada distrito, quadros formados, e sobretudo, financiamento sustentável. O Anamola começou bem: ficamos a saber que até 19 horas de ontem, 26 mil novos membros inscreveram-se, pagando a quota base de 150 meticais.
Se a matemática não engana, isso significa um encaixe imediato de três milhões e novecentos meticais — um sinal poderoso de vitalidade. Mas também um alerta: com dinheiro vem a tentação, vem a cobiça e vêm os riscos de má gestão. Quantos partidos já vimos nascer com energia e depois perder-se em disputas por recursos?
O Anamola deve ser diferente. Precisa de regras claras de gestão financeira, auditorias internas, transparência na utilização das quotas. A confiança popular pode transformar-se em descrédito num piscar de olhos se surgirem sinais de enriquecimento ilícito ou de favorecimento interno.
É inegável que Venâncio Mondlane é a alma e o motor do Anamola. O partido nasceu dele, respira dele e mobiliza porque ele existe. Mas essa centralidade é, ao mesmo tempo, a maior força e a maior fragilidade.
Enquanto Mondlane mantiver a energia, a retórica e a capacidade de mobilizar multidões, o partido viverá uma primavera. Mas é preciso começar a pensar desde já em lideranças intermédias, em quadros preparados para sustentar a organização quando o carisma não for suficiente. Partidos demasiado personalistas correm o risco de morrer com os seus fundadores.
O maior inimigo da oposição, depois da Frelimo, tem sido ela própria. Divisões, rivalidades pessoais, falta de disciplina interna — tudo isso tem alimentado a perpetuação do regime.
O Anamola não pode cair na mesma armadilha. A velocidade com que foi criado, a rapidez com que ganhou adesões, e a intensidade da sua euforia são tanto uma bênção como uma ameaça. Quanto maior a expectativa, maior a frustração se o partido não corresponder. Quanto maior o entusiasmo, mais devastador pode ser o desânimo.
É por isso que a liderança deve trabalhar para consolidar uma base disciplinada, com regras claras, mecanismos de resolução de conflitos internos e uma ideologia que não seja apenas contra a Frelimo, mas também a favor de algo concreto: justiça social, ética política, independência judicial.
Quem acredita que a vitória eleitoral está próxima porque Mondlane juntou multidões na Beira engana-se. A estrada é longa e tortuosa. O regime tem décadas de experiência em manipulação, uma rede consolidada de interesses e recursos quase ilimitados.
O Anamola precisa de paciência estratégica. Precisa de ocupar espaço nos conselhos municipais, nas assembleias provinciais, nas organizações de base. Precisa de transformar o entusiasmo em militância organizada e persistente. Precisa de compreender que derrubar uma ditadura de partido único não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona.
O nascimento do Anamola é, sem dúvida, um sopro de esperança. As imagens da Beira ficarão na memória colectiva como símbolo de que Moçambique ainda não desistiu de sonhar. Mas a euforia deve ser acompanhada de vigilância.
Só para lembrar: a Frelimo não dorme; os infiltrados não descansam; o dinheiro pode dividir.; personalismo pode fragilizar; a unidade interna é questão de vida ou morte. Até ao fecho desta edição, 26 mil moçambicanos já se inscreveram no partido em apenas 24 horas. É um sinal poderoso. Mas como diz o próprio Evangelho: “Orai e vigiai”.
O Anamola pode ser a centelha de um novo Moçambique. Mas só o será se transformar a euforia em estratégia, a paixão em disciplina e a esperança em organização. O resto é música para os ouvidos da Frelimo, que sabe esperar o erro do adversário para golpear sem piedade.

