A província de Nampula lançou, na última quinta-feira, no Hospital Geral de Marrere, uma nova campanha de cirurgias de hidrocele, condição frequentemente associada à filariose linfática e que continua a afectar milhares de homens de forma silenciosa. A iniciativa prevê, numa primeira fase, a realização de mais de 200 intervenções até ao próximo dia 5 de Março.
A acção é promovida pela Direcção Provincial de Saúde (DPS) de Nampula, em coordenação com a organização Sightsavers, e enquadra-se no plano de controlo das doenças tropicais negligenciadas, com enfoque particular na gestão das complicações da filariose linfática.
Entre os beneficiários está Felisberto Júlio, de 59 anos, que convive com o problema há cerca de 19 anos. O paciente relatou que, durante muito tempo, evitou procurar tratamento, apesar do agravamento progressivo da situação.
“Eu nunca tinha pensado em operar. No ano passado ainda tentei, mas não foi possível. Fui aguentando assim mesmo”, contou, referindo que o medo da cirurgia e a falta de oportunidades contribuíram para o adiamento da intervenção.
Com o passar dos anos, o desconforto físico intensificou-se e passou a interferir nas actividades diárias. Embora mantivesse a vida familiar, Felisberto admite que a condição lhe causava constrangimentos sociais.
“Lá no bairro as pessoas estranhavam. Eu sempre evitava me expor. Fui vivendo assim, com muito cuidado”, disse.
Para o paciente, a campanha representa a oportunidade aguardada durante anos. “Se Deus quiser, vai correr tudo bem. O que eu quero é ficar livre desta dor e voltar a viver à vontade”, afirmou.
Outra história é a de Afonso Cândido, de 43 anos, que enfrenta a doença desde a juventude. Segundo relatou, a condição afectou a sua autoestima e a forma como era visto na comunidade.
“Não me sentia homem. Sempre que eu passava, as pessoas estranhavam e até recebia nomes. Era muito difícil para mim”, disse.
Afonso afirma que decidiu aderir à campanha assim que tomou conhecimento da iniciativa durante as acções de sensibilização comunitária. “Quando ouvi falar da campanha, não pensei duas vezes. Tive que aderir para aliviar essa humilhação que vinha carregando há muitos anos”, declarou.
O paciente manifestou ainda preocupação com o silêncio de outros homens que continuam a sofrer em casa por vergonha ou desinformação. “Há muitas histórias que se contam, como a de que a cirurgia pode fazer perder a potência sexual. Isso não é verdade. E a operação é gratuita. As pessoas precisam saber disso”, alertou.
Do lado das autoridades sanitárias, o reconhecimento é de que o problema assume dimensão preocupante na província. O chefe do Departamento de Saúde Pública na DPS de Nampula, Nalcil Biassone, explicou que a campanha integra uma estratégia mais ampla de controlo das doenças tropicais negligenciadas.
Segundo o responsável, o plano provincial assenta em três pilares: o tratamento massivo das populações em risco, o manejo adequado dos casos já identificados e a gestão das complicações associadas à filariose linfática.
“Neste momento estamos focados na gestão das complicações da filariose linfática, cuja uma das manifestações mais frequentes é o hidrocele. Queremos reduzir o sofrimento destes pacientes e devolver a sua dignidade”, afirmou.
A campanha conta com apoio técnico e logístico da Sightsavers. O representante da organização, Ercílio Jive, explicou que a instituição apoia tanto a prevenção da cegueira evitável como o combate às doenças tropicais negligenciadas.
“No caso da filariose linfática, estamos a financiar hidrocelectomias e a apoiar o manejo de casos de linfedema, conhecido como ‘pé de elefante’”, disse.
De acordo com o responsável, o apoio inclui o fornecimento de materiais, o reforço da capacidade técnica das unidades sanitárias e o suporte às campanhas cirúrgicas em distritos com maior incidência da doença.
No âmbito da presente campanha, participam dez técnicos de cirurgia — oito da província de Nampula e dois da Zambézia — numa acção intensiva de capacitação e actualização em técnicas de hidrocelectomia, orientada por três cirurgiões seniores.
A componente formativa combina sessões teóricas e prática no bloco operatório do Hospital Geral de Marrere, permitindo que os profissionais reforcem competências enquanto atendem pacientes previamente identificados.
Durante esta fase, estão previstas cerca de 200 cirurgias. As autoridades sanitárias sublinham, contudo, que o impacto deverá estender-se para além da campanha imediata.
Após o regresso às respectivas unidades sanitárias, os técnicos deverão dar continuidade às intervenções, com a meta mínima de realizar pelo menos 500 cirurgias num horizonte próximo.
Dados da Direcção Provincial de Saúde indicam que, nos últimos cinco anos, foram identificados cerca de 10 mil pacientes com hidroceles na província de Nampula, evidenciando a magnitude do desafio.
As autoridades alertam que muitos casos já se encontram em estágios avançados, incluindo situações de hidroceles gigantes, resultado do atraso na procura de cuidados médicos.
Para o sector da saúde, a campanha representa não apenas uma resposta clínica imediata, mas também uma intervenção com impacto social significativo. Com o reforço das cirurgias, da formação dos profissionais e das acções de sensibilização, espera-se que mais homens procurem tratamento e que o estigma associado à doença comece gradualmente a diminuir na província. Agostinho Miguel

