Iniciativa criada em Nampula aposta na formação técnica como alternativa ao desemprego juvenil. Mentor diz ter batido às portas do Governo, ONG e parceiros internacionais sem obter financiamento para expandir o programa.
Num país onde o desemprego juvenil continua entre os maiores desafios ao desenvolvimento, uma iniciativa criada em Nampula afirma ter capacidade para formar milhares de jovens para o mercado de trabalho, mas permanece sem financiamento para expandir as suas actividades.
Trata-se do Projecto SABER, promovido pela organização Go Moçambique, que aposta na capacitação técnica e profissional de adolescentes e jovens em situação de vulnerabilidade, procurando aproximar a formação das exigências do mercado de emprego.
Lançado em Outubro do ano passado, o projecto foi concebido para complementar o ensino formal, proporcionando competências práticas que permitam aos beneficiários criar o próprio emprego ou aumentar as possibilidades de inserção profissional.

Segundo o mentor e director da iniciativa, Chimoio Marques, cerca de três mil jovens participaram nas primeiras acções de formação desenvolvidas nos distritos de Nampula, Rapale e Meconta.
Ao contrário do modelo predominantemente teórico do Sistema Nacional de Educação, o Projecto SABER centra-se no desenvolvimento de competências práticas, permitindo aos participantes aplicar imediatamente os conhecimentos adquiridos.
Um dos exemplos apontados pelo projecto foi a reabilitação do bloco administrativo da Escola Secundária de Cossore, vandalizado anteriormente durante protestos estudantis. A obra foi executada pelos próprios formandos, num investimento de cerca de 70 mil meticais financiado com recursos da organização.
Para Chimoio Marques, a experiência demonstra que a formação técnica pode produzir resultados concretos e responder simultaneamente às necessidades das comunidades.
Meta é formar 25 mil jovens até 2029
A ambição da iniciativa passa por formar cerca de 25 mil jovens até 2029, numa média de cinco mil beneficiários por ano.
A segunda fase prevê igualmente a criação de oficinas comunitárias e incubadoras de negócios destinadas a apoiar jovens empreendedores e promover a geração de rendimento.
Segundo os promotores, o modelo poderá beneficiar até 12 mil jovens por ano através da combinação entre formação técnica e actividades produtivas.
Contudo, a concretização destes objectivos depende da mobilização de financiamento estimado em cerca de quatro milhões de meticais.
Mentor denuncia falta de apoio institucional
Apesar dos resultados alcançados, Chimoio Marques afirma que o projecto continua sem apoio financeiro do Governo, organizações não-governamentais e parceiros de cooperação.

Segundo relata, vários contactos foram estabelecidos junto de instituições públicas e organismos internacionais, mas sem sucesso.
“Precisamos de cerca de quatro milhões de meticais para consolidar o projecto. Batemos às portas das autoridades governamentais, enviámos uma carta ao Gabinete do Governador e também procurámos a Secretaria de Estado, mas até hoje não obtivemos qualquer resposta.”
Para o responsável, o principal obstáculo ao combate ao desemprego juvenil não é a ausência de soluções, mas a dificuldade em apoiar iniciativas que já apresentam resultados.
“Não se trata de falta de soluções, mas de falta de vontade para reconhecer aquilo que já está a funcionar.”
Mais formação, menos assistencialismo
Marques defende uma mudança de paradigma nas políticas dirigidas à juventude.
Na sua opinião, programas baseados apenas na distribuição de apoios pontuais não resolvem o problema estrutural do desemprego.
“Sem ferramentas para trabalhar, o jovem continuará dependente, independentemente dos apoios que receba.”
Dados recolhidos pelo projecto indicam que muitos jovens concluem o ensino secundário sem condições para prosseguir estudos ou ingressar no mercado de trabalho, situação que, segundo os promotores, aumenta a vulnerabilidade social e favorece fenómenos como a criminalidade e o consumo de drogas.
Enquanto aguarda por financiamento, o Projecto SABER continua a funcionar com contribuições simbólicas dos próprios participantes, destinadas a cobrir despesas de certificação e logística.
Para o seu mentor, cada ano sem apoio representa uma oportunidade perdida para milhares de jovens que procuram formação e uma porta de entrada no mercado de trabalho. Agostinho Miguel
