Em pleno século XXI, mais de 50 famílias do bairro Adine 3, em Cuamba, província do Niassa, vivem como se estivessem no deserto. Torneiras secas, tanques vazios e uma única opção: caminhar longas distâncias até ao rio Muandah para recolher água barrenta, imprópria para consumo humano.
“Estamos sem água e temos que buscar no rio. E a água é suja”, desabafou uma moradora, visivelmente revoltada. Marta Feitiço, outra residente, resumiu a frustração em poucas palavras: “A FIPAG não diz nada. A solução é ir ao rio.”
Enquanto mães e crianças arriscam a saúde carregando baldes sobre a cabeça, o Fundo de Investimento e Património do Abastecimento de Água (FIPAG) parece ter suspendido as suas responsabilidades. Contactado, o técnico Miguel Filomone limitou-se a responder: “Não tenho nada a dizer e estou de férias.”
Indiferença que custa vidas
O silêncio das autoridades contrasta com a dura realidade de uma população que enfrenta diariamente a ameaça de doenças hídricas. Crianças bebem água contaminada, idosos suportam caminhadas extenuantes e famílias inteiras vivem com a dignidade ferida pela negligência institucional.
Em Cuamba, a crise da água deixou de ser apenas um problema técnico: tornou-se um espelho doloroso da indiferença de quem deveria garantir um direito básico. Enquanto o FIPAG descansa, a sede continua a ser a única rotina assegurada para dezenas de famílias.

