O secretário provincial da Associação Nacional dos Professores (ANAPRO) em Cabo Delgado, Uahiti Azito, acusa o Governo moçambicano de não atribuir a devida prioridade ao sector da educação, apontando aquilo que considera ser uma falta de investimento e uma gestão inadequada dos recursos humanos, factores que, segundo afirma, comprometem a qualidade do ensino no país.
Em entrevista ao NGANI, Azito sustentou que o Executivo continua a relegar a educação para segundo plano, apesar do papel estratégico do sector no desenvolvimento nacional.
“Quando se trata da educação, diz-se sempre que não há dinheiro. No entanto, há outros sectores que continuam a receber investimentos significativos. A educação fica sempre para trás”, afirmou.
Segundo o dirigente sindical, os professores continuam a desempenhar as suas funções em condições adversas, sendo frequentemente chamados a responder por resultados de qualidade sem disporem dos meios necessários para o exercício da profissão.
“Os professores trabalham a cem por cento, mas muitas vezes sem água, sem lanche e sem condições mínimas para desempenhar as suas actividades. Mesmo assim, continuam a ser cobrados por melhores resultados”, lamentou.
Infra-estruturas e financiamento continuam a preocupar
Azito apontou igualmente as condições das infra-estruturas escolares como um dos principais desafios do sector, sobretudo nas zonas afectadas por eventos climáticos extremos, como o ciclone Chido, que destruiu diversas escolas no norte do país.
Na sua perspectiva, os modelos de reconstrução adoptados pelo Governo não respondem adequadamente às necessidades das comunidades e representam um uso pouco eficiente dos recursos.
“Continuamos a construir salas de bambu, apesar dos elevados custos envolvidos. Parece que não estamos a aprender com os erros do passado”, criticou.
O secretário provincial da ANAPRO questionou ainda a composição do Orçamento Geral do Estado destinado à educação, estimando que os cerca de 17 por cento atribuídos ao sector sejam absorvidos maioritariamente pelo pagamento de salários, sem reflexos significativos na melhoria das condições de ensino.
“Na região da África Austral, recomenda-se que os países invistam cerca de 20 por cento do orçamento na educação. Em Moçambique, o sector recebe cerca de 17 por cento, mas grande parte desses recursos destina-se ao pagamento de salários”, explicou.
Superlotação das turmas e falta de professores
Entre as preocupações levantadas pelo dirigente sindical figura também a crescente superlotação das salas de aula, situação que associa à escassez de professores e às medidas adoptadas pelo Governo para reduzir despesas com horas extraordinárias.
“Turmas que anteriormente tinham cerca de 50 alunos passaram a albergar quase 100 estudantes, devido à redução do número de turmas e à tentativa de evitar custos adicionais com horas extras”, denunciou.
Azito considera igualmente preocupante a existência de centenas de professores formados que permanecem sem colocação no sistema nacional de educação, alguns dos quais aguardam uma oportunidade de emprego há vários anos.
“Temos professores formados há três, quatro ou cinco anos que continuam sem emprego. Trata-se de uma clara marginalização de profissionais preparados pelo próprio Estado”, afirmou.
Na sua opinião, a permanência prolongada desses quadros fora do sistema poderá afectar a qualidade do ensino, uma vez que os profissionais acabam por perder competências por falta de prática.
Sindicalista denuncia alegados casos de corrupção
O responsável da ANAPRO denunciou ainda a existência de alegadas práticas de corrupção no processo de ingresso de professores na função pública, fenómeno que, segundo disse, se agravou após o fim da colocação automática dos recém-formados.
“Antes, os professores eram colocados automaticamente. Hoje, o acesso ao sistema tornou-se um problema e abriu espaço para práticas de corrupção”, acusou.
Apesar das frequentes referências às limitações financeiras do Estado, Azito entende que o principal problema não reside na falta de recursos, mas sim na ausência de vontade política para colocar a educação entre as prioridades nacionais.
“O Governo tem dinheiro. O problema não é financeiro, mas sim a falta de vontade política para investir seriamente na educação”, defendeu.
O secretário provincial da ANAPRO em Cabo Delgado advertiu que a manutenção do actual cenário poderá ter consequências graves para o futuro do país.
“A base de qualquer desenvolvimento é a educação. Se continuarmos neste caminho, os problemas tenderão a agravar-se, porque este sector não está a ser tratado com a seriedade que merece”, concluiu. Agostinho Miguel

