Há homens que vivem como carruagens num carril único: avançam, recuam, repetem a mesma linha até o metal ceder e a vida os revender por sucata. E há outros que, por dinheiro, por nome, por portas que se abrem ao simples gesto de um anfitrião, conseguem deslocar o próprio carril. Não rumo à liberdade, mas rumo à impunidade.
Jeffrey Epstein pertenceu a esta segunda espécie. Não foi apenas um predador sexual. Foi um predador com capital, com advogados de vigília, com convites em papel espesso, com números de telefone que, em certos salões, valem mais do que um mandado. O escândalo não reside no facto de um homem fazer o mal, homens fazem o mal todos os dias, com e sem fantasia, mas em observar como a riqueza reorganiza a moral pública: o dinheiro não apaga o crime; altera-lhe a linguagem, adia-lhe a consequência, afina-lhe o tom, até o converter em “rumor”, em “excentricidade”, em “assunto privado” de gente “complicada”.
Durante anos, a trajectória de Epstein foi a demonstração de uma regra velha: a lei tem olhos, mas nem sempre tem coragem de ver; e, quando vê, nem sempre tem pressa. Uma vida feita de raparigas recrutadas, transportadas, isoladas, usadas e descartadas, atravessando jurisdições como quem atravessa corredores de hotel, deveria ter produzido alarmes, relatórios, vigilância. Produziu, demasiadas vezes, silêncio e convivência. Não por ignorância. Por conveniência. A mesma máquina que, no caso de um homem pobre e desconhecido, alimentaria a fome académica por explicações sobre “patologia” e “trauma” foi aqui substituída por uma curiosidade mais cobarde: a curiosidade de ficar perto do dinheiro sem sujar as mãos.
Chamarem-lhe “monstro” é um juízo moral; é também uma pista analítica. Há monstros que operam na sombra, com improviso e desordem. Epstein, pelo contrário, construiu um aparelho. A casa de Manhattan, a mansão na Florida, o jacto, a ilha caribenha eram menos luxos do que instrumentos: espaços desenhados para separar vítimas do mundo comum, embrulhar o grotesco em glamour, converter a violência em ritual de elite. Onde há horários, listas, transportes, pagamentos, há organização; e, onde há organização, a crueldade aproxima-se do industrial.
Num universo assim, a pergunta mais perturbadora não é a psicológica, “o que o tornou desviado”, mas a social: como foi possível que tanta gente, supostamente respeitável, ajustasse a consciência para continuar sentada à mesa. Universidades que aceitaram proximidade como filantropia. Bancos que toleraram sinais de alarme enquanto o lucro continuava a fluir. Fundações que confundiram doação com absolvição. Políticos que, tendo faro para o escândalo quando ele sobe do chão, se tornaram míopes quando vinha de fato caro e boa agenda.
No fundo do predador havia algo mais frio do que desejo. Havia cálculo. Um raciocínio actuarial, próprio de quem vive de risco e retorno. A máquina exigia não só raparigas vulneráveis, mas raparigas governáveis: pessoas que pudessem ser convencidas de que a vergonha lhes pertencia; de que a palavra “consentimento” podia ser torcida; de que a denúncia as destruiria antes de o destruir a ele. Era necessário que o silêncio surgisse como a única saída “respeitável”. E era necessário, sobretudo, que a narrativa fosse controlada.
É aqui que a dimensão racial ganha um relevo inquietante. A ausência conspícua de raparigas negras em certos cenários do esquema não soa a detalhe estético, nem a preconceito difuso. Soa a gestão de risco. Um predador que organiza o seu mundo como negócio aprende a classificar perigos: quem fala e quem se cala; quem é isolável e quem tem rede; quem aceita a promessa e quem suspeita da promessa.
As raparigas negras carregam, muitas vezes, uma herança de lucidez precoce. Não por romantização, mas por sobrevivência histórica. Há uma alfabetização do perigo que se aprende cedo quando o mundo, repetidamente, demonstra que a protecção não é garantida. Dessa experiência colectiva nasce uma epistemologia da suspeita: ler o sorriso excessivo, desconfiar da oferta demasiado limpa, perguntar pelo preço escondido. Numa engrenagem que depende de obediência, essa suspeita funciona como ácido. Corrói a encenação.
Um predador como Epstein precisava de vítimas atomizadas: cada uma sozinha com a sua culpa, sem linguagem para nomear o que lhe aconteceu, sem confiança de que alguém a acreditaria. Quem chega com perguntas estraga o jantar. Quem constrói solidariedade entre vítimas desmonta a sala. E quem fala alto, sem pedir licença à vergonha, abre a porta para o mundo comum entrar.
Há, além disso, uma dimensão brutalmente económica. Quando a exploração é lida como transacção, perde parte do feitiço. A filantropia deixa de ser halo e passa a ser contrato. A “mentoria” deixa de ser oportunidade e passa a ser tentativa de captura. Numa leitura assim, uma rapariga menos domesticável pode exigir preço, pode recusar, pode denunciar cedo, pode chamar comunidade e opinião pública em vez de se encolher dentro de si. Para um esquema sustentado por silêncio e reputação, isso é risco inaceitável.
Por isso, a história de Epstein não deve ser lida como a de um desejo fora de controlo, mas como a de uma engenharia da impunidade. Ele foi arquitecto de condições. Escolheu vítimas que cabiam no seu guião e evitou aquelas que podiam rasgá-lo. Essa escolha é, por si só, uma confissão: diz-nos que o predador sabia exactamente o que fazia e que o seu “monstruoso” não era apenas perversão íntima; era inteligência aplicada ao mal.
A comparação com Sean Combs é instrutiva: as alegações contra ele incluem mulheres negras que mostraram disponibilidade para falar em tribunal, em depoimentos que recusam o eufemismo. O que um predador subestima, muitas vezes, não é a lei. É a voz.
No fim, a sociedade gosta de monstros porque os monstros aliviam a culpa colectiva: se é um “excepcional”, o resto do mundo fica intacto. Mas Epstein não floresceu apesar das estruturas. Floresceu dentro delas. As estruturas deram-lhe gramática, lugares, desculpas, intervalos, tolerâncias. O horror não é apenas o que ele fez; é o que tantos aceitaram, racionalizaram, ignoraram, enquanto o dinheiro circulava. Há crimes que se cometem no escuro. E há crimes que se cometem sob luz bonita, com vinho caro, com risos contidos, com um silêncio que não é ausência de som, mas decisão. Sousa Jamba

