Atrasos na distribuição de manuais escolares comprometem o processo de ensino e aprendizagem em escolas dos distritos de Murrupula, Mogovolas e Mossuril, na província de Nampula.
A quatro meses do fim do ano lectivo de 2026, várias escolas dos distritos de Murrupula, Mogovolas e Mossuril, na província de Nampula, continuam sem receber, na totalidade, os livros escolares destinados aos alunos.
A situação foi constatada por uma equipa de trabalho da Assembleia Provincial de Nampula, em coordenação com o Movimento de Educação Para Todos (MEPT), durante uma visita a estabelecimentos de ensino daqueles três distritos.
A primeira paragem da equipa foi na Escola Básica de Nihesiue, no distrito de Murrupula. Segundo o director da escola, Miguel Pedro, o estabelecimento conta com pouco mais de 900 alunos e enfrenta défice de livros em várias classes.
O gestor defende que os manuais devem chegar às escolas antes do início das aulas, permitindo que professores e direcções escolares preparem adequadamente o processo de ensino.
“Os livros deviam ser recebidos antecipadamente, antes da abertura do ano lectivo, para permitir uma boa organização”, afirmou.
Pedro explicou que as primeiras e segundas classes não dispõem de livros completos, enquanto a terceira, quarta e quinta classes também enfrentam défices.
Na quarta classe, por exemplo, os alunos não receberam os livros de Ciências Naturais. A situação afecta cerca de 400 alunos, que, segundo o director, não dispõem do material escolar necessário na sua totalidade.
O responsável reconhece que a falta de manuais pode prejudicar o aproveitamento pedagógico dos alunos.
Miguel Pedro disse ainda que já procurou esclarecimentos junto dos Serviços Distritais de Educação, Juventude e Tecnologia de Murrupula, mas recebeu como resposta que o problema é do conhecimento do Ministério da Educação e Cultura.
Livros chegaram em Maio
O presidente do Conselho de Escola de Nihesiue, António Caetano, confirma que os poucos livros disponíveis chegaram apenas em Maio, já com o ano lectivo em curso.
Caetano pede uma intervenção urgente das autoridades, sobretudo para garantir os manuais às classes iniciais.
“Quando um aluno tem livro, aprende mais facilmente. Se o professor fala de uma laranja, por exemplo, o aluno pode vê-la no livro. Sem livro, o sistema de ensino está cada vez mais degradado”, lamentou.
Em Mossuril, livros continuam no armazém
No distrito de Mossuril, a situação apresenta outro constrangimento. Na Escola Básica de Ampita, que funciona igualmente como Zona de Influência Pedagógica (ZIP) e abrange seis escolas, os livros chegaram, mas ainda não foram distribuídos.
A directora-adjunta, Teresa Carlos, considera a situação preocupante e alerta para os possíveis impactos na aprendizagem dos alunos.
Segundo a responsável, 40 caixas de livros chegaram à escola na semana anterior à visita da equipa, mas permaneciam armazenadas por falta de definição sobre a distribuição pelas seis escolas abrangidas pela ZIP.
“Os livros chegaram, mas ainda estão no armazém. Se não forem distribuídos rapidamente, corremos o risco de terminar o ano lectivo sem que os alunos os utilizem”, afirmou.
Na própria Escola Básica de Ampita estudam pouco mais de 300 alunos, mas nenhum recebeu os livros correspondentes ao ano lectivo de 2026. Os alunos continuam a utilizar manuais do ano anterior.
Alunos estudam com dificuldades
Anifo Gildo, aluno da sexta classe na Escola Básica de Ampita, diz que ainda não recebeu os livros escolares de 2026 e que a situação dificulta sobretudo a preparação das aulas em casa.
“Não tem sido fácil estudar e preparar as lições quando estou em casa”, contou, apelando ao Governo para que dê maior prioridade ao sector da educação.
Para o aluno, o investimento na educação é fundamental para o desenvolvimento do país.
Na Escola Básica de Nihesiue, Antonieta Estevão, também aluna da sexta classe, encontra-se na mesma situação. Sem os livros, diz que depende do apoio dos professores para acompanhar as matérias.
A estudante pede que os manuais sejam distribuídos atempadamente para permitir que os alunos se preparem melhor para o futuro.
Professores recorrem a alternativas
A falta de livros também coloca pressão sobre os professores.
Amurane Selemane, professor da Escola Básica de Ampita, afirma que os alunos da sexta classe não receberam os respectivos manuais, obrigando os docentes a recorrer aos materiais disponíveis para assegurar as aulas.
“Temos feito um esforço para ensinar as crianças mesmo sem os livros, mas não é fácil”, disse.
O professor apela ao Governo para que trate o sector da educação com maior seriedade, defendendo investimentos que permitam melhorar as condições de ensino.
“Um sistema de educação deficitário pode comprometer o progresso do país”, alertou.
Assunto pode chegar à Assembleia Provincial
A recepção tardia dos livros preocupa igualmente os membros da Assembleia Provincial de Nampula.
Lucrécia Cossa, membro daquele órgão, disse ter ficado preocupada com o cenário encontrado nas escolas visitadas e apelou ao sector da educação e aos seus parceiros para que encontrem uma solução urgente.
“Sem livro é muito difícil os alunos aprenderem”, afirmou.
Cossa revelou ainda que a questão poderá ser levada à discussão na próxima sessão da Assembleia Provincial de Nampula.
Autoridades não se pronunciam
As Direcções Distritais de Educação, Juventude e Tecnologia dos distritos visitados recusaram-se a comentar a situação, remetendo o NGANI para a Direcção Provincial de Educação.
Contactada pelo jornal, a Direcção Provincial de Educação de Nampula também não se mostrou disponível para prestar esclarecimentos sobre os atrasos na distribuição dos manuais escolares.
O NGANI mantém-se disponível para publicar a posição das autoridades da educação sobre a situação constatada nas escolas dos distritos de Murrupula, Mogovolas e Mossuril. Celestino Manuel

