Tmcel: Governo prepara venda parcial enquanto activistas exigem responsabilização

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Governo quer atrair investidor estratégico para recuperar a operadora pública, mas activistas exigem investigação sobre a gestão que conduziu a empresa à actual situação financeira. Utilizadores temem aumento dos preços.

O Governo moçambicano prepara a alienação de parte da sua participação na Tmcel, numa tentativa de atrair um investidor estratégico para recuperar a operadora pública, que enfrenta dificuldades financeiras há vários anos.

A decisão foi tomada pelo Conselho de Ministros a 11 de Agosto de 2026, que autorizou a criação de uma equipa técnica responsável por negociar a venda de parte da participação do Estado na empresa.

O anúncio foi feito pelo porta-voz do Governo e ministro da Administração Estatal, Inocêncio Impissa, que apresentou a medida como parte dos esforços para “revitalizar” a operadora.

A percentagem exacta a alienar, o calendário do processo e os potenciais investidores ainda não foram divulgados.

O Estado detém actualmente cerca de 66% do capital da Tmcel, enquanto o Instituto de Gestão de Participações do Estado (IGEPE) controla 26%, colocando a participação pública próxima dos 92%.

Empresa acumula prejuízos

A Tmcel nasceu da fusão entre a antiga mCel e a Telecomunicações de Moçambique, mas tem enfrentado dificuldades financeiras, redução da sua participação no mercado e problemas de tesouraria.

Segundo os dados apresentados no debate sobre a situação da empresa, a dívida total ultrapassava 400 milhões de dólares em 2023, enquanto os salários dos cerca de 1.700 trabalhadores chegaram a registar atrasos.

Em 2024, os prejuízos terão duplicado para 4,44 mil milhões de meticais. No mesmo período, o capital próprio era negativo em mais de 14,5 mil milhões de meticais e o passivo total ultrapassava 37,9 mil milhões de meticais.

A operadora detém cerca de 13% do mercado móvel nacional, ficando atrás da Vodacom e da Movitel.

“Não podemos vender um elefante morto”

Para o activista social Gamito Carlos, a venda parcial da Tmcel é prematura e deve ser precedida por uma investigação à gestão da empresa.

Carlos acusa, sem apresentar no debate provas públicas, anteriores gestores de terem contribuído para o enfraquecimento financeiro da operadora.

“Nós sabemos que a Tmcel tornou-se uma vaca leiteira de pessoas que geriram mal”, afirmou, defendendo que o Governo deve identificar e responsabilizar quem terá conduzido a empresa à actual situação.

“Não podemos levar um elefante morto e irmos vender. Aquilo é dinheiro do Estado, é dinheiro dos moçambicanos”, acrescentou.

O activista pede ainda que a Procuradoria investigue alegações de utilização da empresa para financiar actividades político-partidárias, que descreve como um possível “saco azul”.

Carlos compara a situação ao escândalo envolvendo o INSS e defende que a eventual entrada de um investidor privado não deve apagar a necessidade de responsabilização por actos de gestão anteriores.

“Já era altura de privatizar”

Opinião diferente tem o activista Jejoi Ernesto, que considera que a entrada do sector privado é necessária e chega, inclusive, tarde.

Para Ernesto, a Tmcel faz parte de um conjunto de empresas públicas que deixaram de gerar receitas suficientes para o Estado e passaram a depender de recursos públicos.

“Quando essas empresas são empresas mortas, o melhor a fazer é vender essas empresas, é privatizar essas empresas”, defendeu.

O activista considera que a entrada de capital privado pode permitir a recuperação da operadora.

“A Tmcel já não tinha asas, estava na unidade de tratamento intensivo. Precisava de oxigénio e um novo sangue só pode encontrar no sector privado”, afirmou.

Ernesto rejeita também o argumento de que a alienação possa necessariamente prejudicar os consumidores, lembrando que existem outras operadoras no mercado nacional.

Utilizadores temem aumento de preços

Entre os utilizadores, contudo, a perspectiva é menos optimista.

Jacinto Jamisse, estudante e cliente da Tmcel, receia que a entrada de investidores privados resulte no aumento do preço dos serviços, sobretudo dos dados móveis.

“Eu acho que terá um impacto negativo na nossa sociedade”, afirmou.

Jamisse recorda que anteriormente conseguia adquirir ofertas de dados com valores reduzidos e teme que essas condições deixem de existir após a mudança de estrutura accionista.

Outro utilizador da Tmcel também se manifesta contra a alienação, argumentando que uma empresa privada poderá privilegiar a rentabilidade em detrimento do acesso aos serviços.

“É possível que eles subam os preços”, afirmou, considerando que isso poderá afectar estudantes que dependem da internet para estudar.

O que falta esclarecer

Apesar da decisão do Governo, permanecem por esclarecer vários aspectos fundamentais do processo: qual será a percentagem de capital alienada, quem poderá adquirir a participação e quais serão as condições impostas ao futuro investidor.

A situação financeira da empresa já vinha a provocar medidas de emergência. Em Abril de 2026, a Tmcel colocou bens patrimoniais em hasta pública, num contexto de dificuldades de tesouraria.

O Governo apresenta agora a entrada de capital privado como uma oportunidade para recuperar a operadora.

Os activistas, porém, estão divididos. Enquanto uns defendem a privatização como saída para uma empresa financeiramente debilitada, outros exigem que, antes da venda, sejam investigadas e responsabilizadas as pessoas que terão contribuído para a actual situação da Tmcel.

Entre a urgência de salvar a empresa e a exigência de apurar responsabilidades, permanece uma questão central: como recuperar uma empresa pública sem deixar por esclarecer quem contribuiu para a sua degradação? Moniro Abdala

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