A crise político-militar e económica que atinge a Guiné-Bissau há cerca de quatro meses começa a produzir efeitos profundos no quotidiano da população, com trabalhadores a acumularem até quatro meses de salários em atraso e estudantes a admitirem abandonar os estudos por falta de meios para transporte.
Uma reportagem da Rádio Jovem revela que os atrasos salariais se multiplicam sobretudo no sector privado, onde funcionários relatam dificuldades crescentes para cumprir compromissos básicos, como alimentação, renda e transporte.
Em várias empresas, trabalhadores afirmam não receber ordenados ou subsídios há três a quatro meses, situação que tem agravado as condições de vida de famílias que dependem exclusivamente do rendimento mensal. No sector da comunicação social privada, profissionais confirmam que continuam a trabalhar sem remuneração regular, invocando responsabilidade profissional, apesar das dificuldades.
O impacto estende-se ao transporte informal. Condutores de toca-toca, táxis e moto-táxis descrevem uma quebra acentuada no movimento de passageiros, associada à diminuição do poder de compra. A redução das receitas diárias tem dificultado o pagamento das quantias exigidas pelos proprietários das viaturas, bem como a aquisição de combustível.
“Há dias em que não conseguimos sequer dinheiro para abastecer”, relatou um moto-taxista ouvido pela estação. Segundo os operadores, se o cenário persistir, muitos poderão abandonar a actividade por inviabilidade financeira.
A crise atinge igualmente estudantes que dependem de vários meios de transporte para chegar às instituições de ensino. Alunas que se deslocam diariamente de Antula para a Escola Nacional de Administração (ENA) relatam que o custo acumulado das viagens se tornou incomportável, colocando em risco a continuidade dos estudos.
Na construção civil, trabalhadores enfrentam dilemas semelhantes. Um carpinteiro que actua em Safim afirmou que, quando não consegue pagar o transporte para o local de trabalho, acaba penalizado com descontos no salário já fragilizado.
Perante este quadro, diferentes sectores da sociedade civil guineense defendem a necessidade urgente de estabilidade política e de medidas económicas que travem o agravamento das condições sociais. Enquanto isso, multiplicam-se os relatos de famílias à beira do esgotamento financeiro num país onde a crise já ultrapassa os gabinetes do poder e se instalou nas casas dos cidadãos. Redacção

