O grupo teatral Nguenha, uma das mais activas referências culturais de Nampula na promoção de mudança de comportamentos através da arte, denuncia o silêncio das autoridades provinciais após ter sido seleccionado para participar no Festival Internacional de Teatro de Inverno 2026. Sem apoio financeiro para garantir transporte até Maputo, o grupo corre o risco de falhar o evento, numa situação que volta a expor as fragilidades do apoio governamental ao sector cultural.
O grupo teatral Nguenha volta a erguer a voz, desta vez não no palco, mas no espaço público, denunciando a ausência de apoio institucional que ameaça comprometer a sua participação num dos mais importantes eventos de teatro da lusofonia.
Reconhecido pelo trabalho desenvolvido junto das comunidades, o grupo tem desempenhado um papel relevante na sensibilização social, utilizando o teatro como ferramenta de educação, consciencialização e promoção de mudanças de comportamento.
Agora, enfrenta um dos maiores desafios da sua trajectória: assegurar presença no Festival Internacional de Teatro de Inverno 2026, que decorrerá em Maputo e reunirá companhias teatrais de vários países.
António Álvaro, líder e fundador do grupo, afirma que o convite representa muito mais do que uma simples participação cultural, tratando-se de uma oportunidade estratégica para projectar o nome da província além-fronteiras. “É uma oportunidade única para nós mostrarmos o que sabemos fazer e para representar Nampula ao mais alto nível”, afirmou.
O festival é considerado um dos mais importantes espaços culturais da lusofonia, reunindo grupos provenientes da África do Sul, Brasil, Portugal, Angola e outros países, promovendo intercâmbio artístico, formação e partilha de experiências.
Entre os grupos seleccionados em Moçambique, apenas três províncias foram contempladas, sendo Nampula a única representante da região norte através do Nguenha. Apesar do prestígio do convite, a participação do grupo está ameaçada pela falta de recursos financeiros, sobretudo para custear a deslocação da equipa até à capital do país. “Estamos prontos em termos de ensaios, preparação psicológica e organização. O problema que temos neste momento é apenas o transporte”, explicou António Álvaro.
Segundo o responsável, várias diligências já foram feitas junto das entidades governamentais provinciais, mas sem qualquer resposta concreta até ao momento.
“Enviámos cartas ao gabinete do governador e à Direcção Provincial de Cultura e Turismo, mas até agora não tivemos qualquer resposta”, denunciou.

O silêncio das autoridades é interpretado pelo grupo como um sinal preocupante de desvalorização do sector cultural e do trabalho desenvolvido pelos jovens artistas da província.
Para António Álvaro, a participação no festival não representa apenas um ganho para o grupo, mas também uma oportunidade de promoção da imagem da província.
“A nossa presença não é só ganho para o grupo, é ganho para toda a província de Nampula”, sublinhou.
O líder recorda ainda que esta não é a primeira vez que o grupo enfrenta dificuldades para participar em eventos internacionais, apesar do reconhecimento conquistado dentro e fora do país. “Já recebemos mais de seis convites internacionais, mas muitas vezes não conseguimos ir por falta de apoio”, lamentou.
No ano passado, o grupo foi igualmente convidado para o mesmo festival, mas acabou impedido de participar pelas mesmas limitações logísticas. Ainda assim, o Nguenha mantém-se firme na missão de promover a cultura e fortalecer o teatro comunitário em Nampula, mesmo diante das dificuldades.
O grupo defende que investir na cultura é também investir na educação, cidadania e construção de uma sociedade mais consciente e participativa. Perante a ausência de respostas das instituições públicas, o apelo é agora dirigido ao sector privado e à sociedade civil. “Estamos abertos a todos que queiram apoiar. Queremos levar também as marcas das empresas e representar todos num palco internacional”, apelou António Álvaro.
À medida que o festival se aproxima, cresce a incerteza em torno da participação do grupo, num cenário que reacende o debate sobre o compromisso das instituições públicas com o desenvolvimento cultural no país.
Agostinho Miguel
