Há qualquer coisa de obsceno num país que, cinquenta anos depois da independência, ainda não consegue garantir água aos seus cidadãos. Não estamos a falar de tecnologia nuclear, inteligência artificial ou viagens espaciais. Estamos a falar de água. O elemento mais básico da vida. O mínimo civilizacional que separa um Estado funcional de um território abandonado à própria sorte. Mas em Nampula, a província mais populosa de Moçambique, a água transformou-se num luxo cruel.
Enquanto ministros discursam, governadores inauguram projectos e técnicos apresentam números optimistas em salas climatizadas, milhares de famílias continuam a viver entre torneiras secas, poços contaminados e água recolhida em condutas rompidas. Crianças disputam baldes em valas lamacentas como se participassem numa luta primitiva pela sobrevivência. Mulheres percorrem quilómetros carregando bidões à cabeça enquanto bairros inteiros passam semanas sem uma gota nas torneiras.
E o mais revoltante é que isto já deixou de ser emergência. Tornou-se sistema. A crise da água em Nampula é o retrato perfeito da falência silenciosa do Estado moçambicano. Um Estado que aprendeu a conviver perigosamente com o absurdo. Um Estado que normalizou a humilhação colectiva. Um Estado onde o sofrimento da população já não produz vergonha institucional.
Porque não é normal que, em pleno século XXI, cidadãos tenham de disputar água em tubagens vandalizadas. Não é normal que bairros inteiros dependam da sorte para beber, cozinhar ou tomar banho. Não é normal que uma cidade inteira viva permanentemente à beira da cólera. E sobretudo, não é normal que tudo isso aconteça enquanto os governantes continuam a falar de progresso, desenvolvimento e crescimento económico.
Há muito tempo que o problema da água deixou de ser técnico. Tornou-se político. A sede em Nampula não é consequência apenas das mudanças climáticas ou do crescimento populacional. Ela é filha directa da incompetência, da corrupção, da ausência de visão estratégica e da governação baseada em propaganda. Porque dinheiro para promessas nunca faltou. Projectos foram anunciados aos montes. Milhões foram investidos. Sistemas foram inaugurados com pompa e fotografia oficial. Mas no terreno, o que permanece é a mesma população cansada, humilhada e abandonada.
O mais cruel nesta história é que a água aparece apenas como prioridade quando a crise explode. Quando surgem surtos de cólera. Quando crianças morrem. Quando as televisões mostram mulheres a recolher água castanha em poças improvisadas. Aí o governo corre para anunciar planos de emergência, parceiros internacionais e investimentos milionários. Passada a pressão mediática, tudo regressa ao normal: o abandono.
Nampula tornou-se especialista em sobreviver à negligência. E talvez seja isso o mais perigoso: a transformação da miséria em rotina. O povo habituou-se à sede da mesma forma que se habituou aos hospitais sem medicamentos, às estradas destruídas, às escolas sem carteiras e aos jovens sem emprego. O sofrimento tornou-se paisagem nacional. Já não choca. Já não revolta as instituições. Apenas desgasta lentamente a dignidade humana.
Mas há uma pergunta que o país precisa de fazer com honestidade brutal, como é possível que, depois de meio século de independência, ainda não consigamos resolver um problema básico como água? A resposta é dura como esta: o Estado moçambicano falhou nas suas prioridades.

Durante anos, investiu-se mais em discursos do que em manutenção. Mais em inaugurações do que em sustentabilidade. Mais em propaganda política do que em planeamento urbano sério. Sistemas de abastecimento foram deixados ao abandono logo após as cerimónias de corte de fita. Bombas avariadas permaneceram meses sem reparação. Infra-estruturas inteiras tornaram-se inoperacionais poucos anos depois de inauguradas.
E ninguém responde por isso. Essa talvez seja a doença mais profunda da governação moçambicana, a ausência absoluta de responsabilização. O sistema falha, milhões desaparecem, obras colapsam, populações sofrem… e no fim ninguém é responsabilizado. O fracasso tornou-se politicamente gratuito.
Entretanto, quem paga a factura é sempre o cidadão comum. É a mulher que acorda às três da manhã para entrar numa fila de água. É a criança que falta à escola porque precisa procurar um poço distante. É o pai de família que continua a pagar facturas mesmo quando as torneiras passam meses secas. É o jovem que cresce acreditando que viver sem água é algo normal.
E há algo ainda mais obsceno nesta crise como a desigualdade. Os dirigentes raramente sofrem os efeitos do colapso que produzem. Vivem em zonas abastecidas, possuem reservatórios privados, furos particulares e alternativas que o cidadão comum jamais terá. A sede, em Moçambique, tem classe social. Os ricos discutem pressão da água. Os pobres discutem sobrevivência.
Talvez por isso a crise nunca seja verdadeiramente resolvida. Porque quem decide não sente.
A barragem de Mugica resume perfeitamente esta tragédia nacional. Durante anos foi apresentada como solução estratégica para o abastecimento de Nampula. Uma infra-estrutura com capacidade significativa, capaz de aliviar o sofrimento de milhares de famílias. Mas o projecto ficou pelo caminho, atolado em burocracias, interesses económicos e incapacidade política.
Enquanto isso, a população continua a recolher água em condutas rompidas.É difícil imaginar metáfora mais cruel para o fracasso do Estado.
E no entanto, apesar de tudo, os discursos oficiais continuam optimistas. Continuam a anunciar “melhorias”, “expansão da rede”, “novos sistemas” e “parcerias estratégicas”. O problema é que o cidadão já não bebe promessas. O povo não mata a sede com conferências de imprensa. A realidade destruiu a propaganda.
Nampula não precisa de mais discursos. Precisa de água. Precisa de um governo que compreenda que acesso à água não é favor político, mas obrigação constitucional. Precisa de dirigentes que governem pensando em seres humanos e não em calendários eleitorais. Precisa de instituições capazes de planear a longo prazo e não apenas sobreviver ao próximo ciclo político.
E um país que falha em garantir água ao seu povo não está apenas a administrar mal. Está a falhar moralmente como República. Editorial, 25 de Maio de 2026
