No último mês estivemos em Cabo Verde. Percorremos cidades, visitámos localidades remotas, conversámos com cidadãos, empresários, jornalistas e governantes. Regressámos a Moçambique com uma conclusão desconfortável que muitos não gostarão de ouvir: o problema nunca foi o colono.
Durante cinquenta anos habituámo-nos a procurar explicações para os nossos fracassos no passado e no presente. Sempre que o desenvolvimento não chega, aponta-se para a colonização. Sempre que a pobreza persiste, culpa-se a herança recebida em 1975. Sempre que o Estado falha, procura-se um responsável distante no tempo. O problema é que a realidade, por vezes, destrói as narrativas mais confortáveis.
Cabo Verde também foi colonizado por Portugal. Cabo Verde também se tornou independente em 1975. Cabo Verde também herdou pobreza, analfabetismo e enormes limitações estruturais. Cinquenta anos depois, porém, um país discute quando alcançará o estatuto de desenvolvido. O outro continua a fazer de tudo para sair do segundo, para o primeiro país mais pobre do mundo. A diferença não está no passado. Está nas escolhas feitas depois dele.
Também não está nos recursos naturais. Durante décadas ouvimos que Moçambique precisava apenas de explorar melhor as suas riquezas para finalmente prosperar. Entretanto, descobrimos gás, carvão, rubis, grafite e praticamente todos os recursos que fazem brilhar os olhos das multinacionais. Continuamos, porém, entre os países mais pobres do planeta.
Cabo Verde não possui nada disso. Não tem gás. Não tem carvão. Não tem rubis. Não tem florestas infinitas nem terras agrícolas abundantes. Vive essencialmente do turismo, da pesca e das remessas enviadas pelos seus cidadãos espalhados pelo mundo. A natureza foi extraordinariamente mais generosa com Moçambique. Ainda assim, um avança com confiança para o futuro enquanto o outro permanece aprisionado às promessas.
A explicação das guerras também já não convence. As guerras não são fenómenos da natureza. Não aparecem como ciclones ou secas. Nascem quando as instituições falham, quando a política deixa de ser um espaço de negociação e quando determinados grupos acreditam possuir mais direitos do que os restantes cidadãos. Sociedades que respeitam instituições resolvem conflitos através da política. Sociedades que as enfraquecem acabam frequentemente por resolver conflitos através da violência.
Foi exactamente por isso que a recente qualificação de Cabo Verde para o Mundial de Futebol de 2026 nos pareceu muito mais do que uma vitória desportiva. Aquilo que aconteceu nos relvados africanos é apenas a manifestação visível de algo que vem sendo construído há décadas.
Nenhuma selecção nacional chega a um Campeonato do Mundo por acaso. Nenhum país ultrapassa adversários mais poderosos apenas com entusiasmo. O futebol recompensa organização, planeamento, disciplina e competência. Exactamente os mesmos valores que produzem desenvolvimento económico, estabilidade política e confiança social.
O Mundial de Cabo Verde começou muito antes das eliminatórias. Começou quando o país decidiu respeitar as suas instituições. Começou quando compreendeu que os governos passam, mas o Estado permanece. Começou quando percebeu que alternância política não é uma ameaça, mas um sinal de maturidade democrática.
Há poucas semanas, Cabo Verde realizou eleições. Foram tão normais que dificilmente mereceriam manchetes numa democracia consolidada. Ninguém morreu. Ninguém foi perseguido. Ninguém precisou de temer a polícia para exercer direitos políticos. Os vencedores venceram. Os derrotados aceitaram os resultados. A vida continuou. Parece banal. Mas não é.
Sobretudo para quem vem de um país onde os processos eleitorais se transformam regularmente em momentos de genocídio, onde as instituições são frequentemente arrastadas para disputas partidárias e onde a confiança pública se deteriora a cada ciclo político.
Em Cabo Verde, a alternância é parte da normalidade democrática. Durante alguns anos governa um partido. Depois governa o outro. As eleições mudam governos, não mudam o país. As instituições continuam a funcionar. Os investimentos continuam a chegar. O desenvolvimento continua a acontecer.
Foi impossível não reparar na confiança que existe na sociedade cabo-verdiana. Não estamos a falar da ausência de problemas. Eles existem. Estamos a falar da convicção colectiva de que o futuro será melhor do que o presente. Essa confiança vê-se nas cidades em expansão, nas infraestruturas, nos espaços públicos cuidados, nos campos relvados encontrados mesmo em localidades relativamente pequenas e na modernidade que surge onde muitos esperariam encontrar apenas limitações.
Durante a nossa visita ouvimos figuras influentes afirmarem que Cabo Verde poderá atingir padrões de país desenvolvido dentro de uma ou duas décadas. Em muitos países africanos tal declaração soaria a propaganda. Em Cabo Verde parece uma meta realista. Não porque tenham descoberto uma fórmula mágica. Não porque sejam mais inteligentes do que os outros. Mas porque construíram algo raro no continente: credibilidade.
É essa credibilidade que atrai investimento. É essa credibilidade que fortalece a economia. É essa credibilidade que permite planear a longo prazo. E é essa credibilidade que, em última análise, também produz resultados no futebol.
Quando Cabo Verde garantiu a sua presença no Mundial de 2026, não venceu apenas um jogo. Venceu uma ideia profundamente enraizada em muitos países africanos: a de que o desenvolvimento depende da sorte geográfica. Cabo Verde demonstra exactamente o contrário. Mostra que instituições valem mais do que recursos naturais. Mostra que democracia vale mais do que propaganda. Mostra que patriotismo vale mais do que discursos.
Cinquenta anos depois da independência, um cabo-verdiano nascido nos anos oitenta viverá para testemunhar a transformação do seu país numa nação desenvolvida. Um moçambicano da mesma geração nunca vai ter essa sorte. Nem ele, nem os filhos e seus netos. Editorial, Jornal NGANI, 01062026

