O escritor e docente universitário, João Zemecuane Sixpense Saltiel, voltou a surpreender o meio literário e académico com o lançamento de duas novas obras que colocam a ética e a consciência social no centro do debate nacional: O Pensar Social e Passeio das Emoções. As obras, apresentadas na última sexta-feira, surgem como um apelo urgente a uma sociedade mais justa, equilibrada e humanizada, em tempos em que a pressa da modernidade ameaça sufocar valores fundamentais.
Por: Agostinho Miguel
Saltiel explicou que O Pensar Social nasceu como um “cafezinho de consciência”, através de reflexões semanais publicadas em diversos órgãos de comunicação social, sobretudo na imprensa escrita. Ao longo dos anos, esses textos foram-se acumulando, até que o autor sentiu a necessidade de os transformar numa análise ampla sobre ética, cidadania e consciência social.
A primeira edição saiu em 2023 e foi tão bem acolhida que se tornou inevitável a reedição e tradução para a língua inglesa. A obra, agora ampliada, percorre temas centrais da realidade moçambicana: pobreza, desigualdade, corrupção, cultura organizacional, educação e identidade social.
“O propósito é questionar e propor caminhos”, afirmou o autor, lembrando que não se trata apenas de apontar problemas, mas de estimular soluções coletivas. Saltiel sublinha que as escolhas feitas no presente determinam o futuro das sociedades. “O pensar social é um exercício de responsabilidade: olhar para dentro e refletir sobre como estamos a construir — ou a destruir — o nosso amanhã.”
Ética como alicerce
Um dos capítulos que mais se destaca é o dedicado à ética. Saltiel aborda este tema de forma abrangente, incluindo reflexões sobre a ética em “Marco”, um campo da sua especialização académica. “A ética em Marco não podia faltar porque faz parte do meu percurso”, disse, reforçando que pensar Moçambique exige repensar valores.
O autor não esconde a sua preocupação com a degradação social: “Vivemos num mundo em que parece já não importar conservar a dignidade. A lógica do louco escondido em cada ser humano parece estar a ganhar espaço. É preciso reverter esta tendência com princípios, valores e consciência crítica.”
Para ele, a universidade deve ser o motor desta mudança. “As academias têm de formar homens e mulheres com qualidade e excelência. Discutir a ética é inadiável numa era em que o bem e a verdade são desprezados em cada esquina.”
Se O Pensar Social convida à reflexão crítica, Passeio das Emoções abre caminho para a introspeção poética. O livro de 147 páginas, comercializado a 500 meticais, é descrito pelo autor como um “passeio da alma na procura de sentido e essência”.
“Cada página é uma descoberta, cada verso é um convite à intensidade, cada palavra lida é um abraço de cumplicidade”, disse Saltiel. O livro, mais intimista, não procura verdades absolutas, mas propõe uma viagem emocional pelos dilemas, afetos e contradições humanas.
Um pensador social no nosso tempo
João Saltiel é reconhecido como um dos pensadores sociais mais consistentes da sua geração. Nascido em 1974, na cidade da Beira, cresceu entre Beira e Nampula. Filho de um reverendo, construiu a sua trajetória académica entre Moçambique e Portugal. É doutorado em Ciências da Comunicação, pós-doutorando em Marketing Estratégico pela Universidade da Beira Interior (Portugal), mestre em Gestão de Marketing e Comunicação Empresarial e licenciado em Gestão de Empresas e Contabilidade.
Para além da vida académica e da carreira como docente da Universidade Católica de Moçambique em Nampula, Saltiel é funcionário da Autoridade Tributária e já presidiu a Associação Provincial de Voleibol de Nampula.
A sua produção intelectual é marcada por uma abordagem crítica à sociedade moçambicana contemporânea, onde a corrupção, a desigualdade e o egoísmo social são frequentemente alvos da sua pena. “Vivemos num mundo de egoísmo total, onde muitos oferecem o sorriso de lobo, mas poucos semeiam sabedoria ou doam amor”, advertiu durante a apresentação.
Mais do que uma apresentação literária, o evento transformou-se num manifesto. Saltiel advertiu que a ausência de ética e de consciência crítica está a destruir o tecido social. “Parece que vivemos numa sociedade em que poucos lançam sementes de sabedoria. Sem educação, sem consciência, sem ética, não teremos futuro.”
O autor insiste que o desafio das sociedades e das academias deve ser o de recuperar valores, reconstruir a dignidade humana e resgatar a arte de viver em comunidade. “Os memes podem ser engraçados, mas não constroem sociedade. Precisamos de cidadania viva, ética e ativa”, declarou.
As duas obras, embora distintas no estilo, convergem num mesmo propósito: agitar consciências. O Pensar Social desafia a leitura crítica e a ação coletiva. Passeio das Emoções convida ao mergulho interior e à reconciliação com a essência da vida.
Saltiel, através delas, sacode Moçambique num momento em que o país se debate com desigualdades sociais, corrupção política e desafios identitários. A sua voz ecoa como alerta e como proposta: refletir mais, agir melhor, viver com dignidade.

