A Associação Nacional dos Professores (ANAPRO) acusa estar a ser sistematicamente bloqueada em vários distritos da província de Nampula — entre eles Ribaué, Eráti e até a capital provincial —, apesar de ser uma organização legalmente reconhecida pelo governo central e pelo Ministério da Justiça.
Agostinho Miguel
Segundo o secretário provincial da ANAPRO em Nampula e coordenador regional norte, Arnaut Ângelo Naharipo, a própria Direcção Provincial de Educação já recomendou oficialmente às escolas e gestores distritais que colaborem com a associação. Há actas de reuniões a confirmar essa decisão. “Recebam a ANAPRO, trabalhem com a ANAPRO, porque eles têm algo a acrescentar”, terá dito o director provincial de Educação de Nampula, William Tunzine.
Mas a ordem não é respeitada por todos. “Alguns gestores abriram as portas, mas outros continuam a ignorar a recomendação, como se estivessem acima da hierarquia. Isso é insubordinação”, denuncia Naharipo.
Para a ANAPRO, a resistência tem um claro cunho político. Há sectores que encaram a associação como ameaça ao controlo partidário sobre as escolas. “O professor ainda é usado como instrumento eleitoral. Em períodos de campanha, muitos são obrigados a abandonar as aulas para fazer política. Depois, para compensar, os gestores pressionam para ‘doar notas’ aos alunos. Isso mata a qualidade da educação”, acusa Naharipo.
Esse quadro ajuda a explicar por que muitos alunos chegam à 12.ª classe sem dominar competências básicas, como escrever correctamente o próprio nome. “Estamos a formar zumbis educacionais”, alerta o dirigente.
Corrupção e má gestão
A ANAPRO também denuncia desvios de fundos do Apoio Directo às Escolas (ADE). Alguns directores recebem até 250 mil meticais, mas continuam a gerir escolas sem portas, sem tectos e com salas em ruínas.
“Enquanto isso, a comunidade é enganada. Quando denunciamos, os gestores sentem-se ameaçados porque expomos verdades que comprometem interesses instalados”, afirma Naharipo.
Para a associação, tais práticas colidem frontalmente com o discurso do actual governo liderado por Daniel Chapo, que tem o combate à corrupção como bandeira.
A luta pela dignidade docente
Historicamente desvalorizados, social e economicamente, os professores continuam a relatar marginalização e falta de voz. A ANAPRO surge, segundo o seu secretário provincial, para inverter esse cenário.
“Antigamente o professor era escamoteado, não tinha quem o defendesse. A ANAPRO surge para dar dignidade, e isso incomoda. Mas não recuaremos”, assegura Naharipo.
Entre os ganhos já alcançados estão a defesa do 13.º salário, a reversão de transferências arbitrárias e a resolução de conflitos em distritos como Ribaué.
Um dos pontos mais críticos levantados pela ANAPRO é a escolha de directores distritais e gestores escolares. Actualmente, muitos chegam ao cargo por indicação política, o que compromete a imparcialidade e submete a escola a interesses partidários.
“Quando vamos a uma escola, o gestor primeiro liga para o partido. Isso mostra a quem deve lealdade. Queremos que esses cargos sejam ocupados por eleição e mérito, não por amizade ou confiança política”, defende Naharipo.
Apesar das barreiras, a associação garante que continuará firme: “A nossa posição é vertical. Vamos permanecer ao lado dos professores, lutar contra a corrupção e exigir uma educação de qualidade.”
Entre denúncias e silêncios
A reportagem do NGANI visitou a Escola Secundária de Muatala, apontada como uma das que têm barrado a entrada da ANAPRO. No primeiro contacto, a secretária do director informou que este estava em reunião com a Direcção Distrital. Dias depois, a equipa voltou ao local, mas foi informada de que o dirigente estava fora do gabinete. Diversas tentativas de contacto telefónico não obtiveram resposta. Uma fonte interna confirmou, contudo, que o director indeferiu o pedido da ANAPRO sem apresentar razões.
O silêncio da direcção de Muatala contrasta com as denúncias dos professores e reforça a tensão entre a ANAPRO e parte da estrutura administrativa da educação em Nampula.
Com mais de 10 mil membros apenas nesta província e presença crescente em todo o país, a ANAPRO pretende consolidar-se como a principal voz da classe docente. Entre a discriminação e a esperança, os professores continuam a lutar por dignidade, qualidade de ensino e pelo direito de não serem reféns de interesses políticos.

