Nampula ergue esperança contra as fístulas obstétricas

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Na semana finda, o Hospital Central de Nampula foi palco de uma campanha intensiva de tratamento de fístulas obstétricas — uma condição dolorosa e incapacitante que continua a atingir centenas de mulheres na província, muitas vezes condenando-as ao isolamento social e à perda da sua dignidade. A iniciativa, promovida pela Focus Fístulas e pela Fístula Foundation, tinha como meta atender cerca de 170 mulheres adultas e raparigas.

Agostinho Miguel

A fístula obstétrica é, na maioria dos casos, resultado de partos prolongados e complicados sem assistência médica adequada. Para além de comprometer a saúde reprodutiva, provoca a perda contínua de urina e fezes, situação que gera mau cheiro, estigma e abandono por parte de maridos, familiares e comunidades.

Maria* (nome fictício), de 28 anos, conhece bem esse sofrimento. “Depois do parto difícil, nunca mais fui a mesma. Perdia urina todos os dias. O meu marido foi o primeiro a dizer que não queria mais viver comigo. Fiquei sozinha com os meus dois filhos pequenos. Só aqui no hospital é que voltei a acreditar que podia ser tratada”, contou, emocionada.

Para o cirurgião Igor Vaz, da Focus Fístulas, as raízes do problema estão na fragilidade do sistema de saúde. “A fístula obstétrica é consequência directa de partos não assistidos. Se todas as mulheres tivessem acompanhamento no pré-natal e acesso a cesarianas quando necessário, a maioria destes casos não existiria”, afirmou.

Durante a campanha, a equipa médica enfrentou jornadas intensas. Casos simples eram resolvidos em cirurgias de 15 minutos, permitindo operar três pacientes por dia. Já os casos graves exigiam até oito horas de trabalho, limitando a intervenção a uma única mulher por jornada.

Amina*, de apenas 17 anos, foi uma das mais jovens tratadas. Forçada a casar aos 15 anos, engravidou pouco depois. “O parto demorou quase dois dias. O bebé não sobreviveu e eu fiquei com este problema. Desde então, tinha vergonha de estar com outras pessoas. Agora, depois da cirurgia, sinto que posso ter uma nova vida”, desabafou, em recuperação.
O peso do estigma social

Para além da dor física, o estigma é a ferida mais cruel. Muitas doentes são afastadas das suas comunidades e até expulsas de casa. Na abertura da campanha, a esposa do governador de Nampula, Nazira Abdula, foi clara: “O facto da mulher perder urina ou fezes cria uma situação de mau cheiro. Isso faz com que muitas sejam abandonadas. Em vez de isolarmos estas mulheres, temos de as apoiar e trazê-las ao hospital para tratamento.”

Nazira reforçou ainda que é preciso atacar as causas estruturais, como os casamentos prematuros e as gravidezes precoces. “Temos de trabalhar na prevenção. Não podemos continuar a ser uma das províncias com mais casos de fístula por causa de partos complicados.”

Apesar do impacto positivo da campanha, os especialistas alertam: o verdadeiro desafio é travar o surgimento de novos casos. Isso exige mudanças culturais, maior adesão aos serviços de saúde materno-infantil e o cumprimento rigoroso das recomendações médicas após as cirurgias.

“Temos casos em que todo o trabalho é perdido por falta de cuidados pós-operatórios. Muitas mulheres voltam cedo a actividades sexuais ou trabalhos pesados, comprometendo a recuperação”, lamentou Igor Vaz.

Bwalya Chomba, directora de programas da Fístula Foundation, explicou que a organização actua em cinco países africanos e tem obtido resultados encorajadores. Sublinhou, contudo, que a sustentabilidade da resposta dependerá do fortalecimento dos sistemas de saúde locais.

Para Julieta*, de 35 anos, a cirurgia significou mais do que um procedimento médico. “Achei que ia morrer com esta doença. Ninguém me queria perto. Agora sinto que tenho uma nova oportunidade. Quero voltar a trabalhar e cuidar da minha família sem medo”, afirmou.

Uma luta pela dignidade

O encerramento da campanha foi celebrado como vitória, mas deixou evidente que a luta está longe de terminar. As cirurgias não podem depender apenas de acções pontuais: devem integrar a rotina dos serviços de saúde, acompanhadas de políticas públicas de prevenção e educação comunitária.

Cada história de recuperação mostra que, para além da cura física, combater a fístula obstétrica é também uma batalha pela reintegração social e pela dignidade feminina. Em Nampula, dezenas de mulheres deram um passo em frente para reconstruir as suas vidas. Mas o desafio colectivo continua a ser o mesmo: garantir que nenhuma mulher seja condenada ao silêncio e ao isolamento por uma condição que pode — e deve — ser evitada.

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