Indubitavelmente, a recente oficialização do partido Aliança Nacional para um Moçambique Livre e Autónomo (ANAMOLA) e a realização do seu primeiro Conselho Nacional na cidade da Beira, entre 20 e 22 de setembro de 2025, marcam um momento histórico na política moçambicana. O que se está a testemunhar não é apenas o nascimento de mais um partido político, mas também a emergência de um movimento que, pela sua capacidade organizativa e mobilização popular, está a redefinir os paradigmas da participação política no país.
Assim, muito rapidamente, acredito que a primeira característica que distingue o ANAMOLA das demais formações políticas moçambicanas é a sua impressionante capacidade organizativa. O registo de 15 mil membros em apenas sete horas, como anunciado por Venâncio Mondlane durante o primeiro Conselho Nacional, não é apenas um número. É o reflexo de uma máquina organizacional que funciona com uma precisão que há muito não se vê no panorama político nacional.
Outrossim, a realização do seu Conselho Nacional na Beira, reunindo mais de 300 delegados e convidados estrangeiros, demonstra uma maturidade organizacional que normalmente levaria anos a desenvolver. O evento, descrito em todo o sítio como tendo decorrido num ambiente pacífico e cívico de excelência, evidencia não apenas a disciplina dos participantes, mas também a capacidade de liderança de Mondlane em manter a ordem e o foco dos seus membros e simpatizantes nos seus objectivos políticos de curto, médio e longo prazos.
A escolha da cidade da Beira como local do evento foi estrategicamente brilhante. Tradicionalmente um bastião da oposição, particularmente da RENAMO e do MDM, a cidade rendeu-se ao ANAMOLA, como reportaram até os meios de comunicação social do sistema (quando já não podiam esconder o seu deliberado silenciamento estratégico). A lição com que se fica é de que aquela capacidade de penetrar em territórios politicamente consolidados da oposição demonstra o apelo transversal do ANAMOLA. Não quero nem imaginar o que vem aí nos supostos bastiões do partido no poder.
Outro dado especialmente importante é a forte componente juvenil do movimento, talvez o seu maior trunfo. Numa sociedade em que, como se diz, mais de 60% da população tem menos de 25 anos, o ANAMOLA conseguiu captar a imaginação e o entusiasmo de uma geração que se sente desligada da política tradicional frenamista. E essa juventude não é apenas numericamente significativa, ela traz consigo uma energia renovadora e uma visão diferente sobre o que deve ser a participação política em Moçambique.
Paralelamente, a reacção (pública e privada) à emergência do ANAMOLA por parte de sectores ligados à FRELIMO e mesmo a alguns partidos da oposição tem sido reveladora. O nervosismo é palpável e, muitas vezes, mal disfarçado. Essas “dores de cotovelo” não são acidentais, reflectindo o reconhecimento tácito de que o movimento de Mondlane representa uma ameaça real ao status quo político. Repare-se: quase todos os membros e simpatizantes do ANAMOLA são cidadãos comuns, historicamente tidos como de segunda ou de terceira categoria em Moçambique. Quase não há lá nomes sonantes, historicamente descendentes das nossas elites materiais e simbólicas. É a esses indivíduos que tudo o que se está a assistir por estes dias deve estar a doer “acutilantemente”.
Afinal, desde a pré-campanha eleitoral de 2024 (ou até mesmo no processo eleitoral para as autárquicas de 2023, ou nos pleitos anteriores a esse ano), quando Mondlane se destacou como uma figura carismática capaz de mobilizar multidões, tem-se assistido a tentativas sistemáticas de minimizar o seu impacto. A popularização da expressão “anamalala” (principal lema político do ANAMOLA e que significa “vai acabar” em emakhuwa) durante os protestos pós-eleitorais criou um símbolo de resistência que transcendeu as fronteiras partidárias tradicionais.
Ainda há mais: o facto de o Ministério da Justiça ter inicialmente rejeitado a sigla ANAMALALA, forçando a mudança para ANAMOLA, pode ser interpretado como uma tentativa de conter simbolicamente o movimento. Contudo, esta resistência burocrática acabou por reforçar a narrativa de que as estruturas estabelecidas temem a nova formação política. O ANAMOLA já assustava antes mesmo de ter sido legalizado, imaginem a partir de agora…
Dentro da própria oposição, o desconforto é evidente. Partidos como a RENAMO e o MDM, que durante décadas se apresentaram como as únicas alternativas credíveis à FRELIMO, vêem-se agora confrontados com um movimento que, em poucos meses, conseguiu gerar mais entusiasmo popular do que eles em décadas de actividade política. E um dos fenómenos mais significativos associados ao ANAMOLA tem sido a deserção de quadros de outros partidos. Embora este movimento ainda esteja em fase inicial, os sinais são inequívocos. O endossamento público de figuras como o economista Rosário Fernandes, antigo Presidente da Autoridade Tributária e do Instituto Nacional de Estatística, no Conselho Nacional do ANAMOLA, onde desafiou o partido a “superar a FRELIMO”, é simbólica desta migração de competências. Muito mais revelador ainda foi o testemunho do presidente do município de Vilankulo, Quinito Vilanculos, eleito pela RENAMO, que durante o lançamento oficial do ANAMOLA se referiu a Venâncio Mondlane como “o nosso presidente”. Este tipo de declarações públicas por parte de figuras com imenso respeito e com responsabilidades institucionais indica que o movimento já está a penetrar nas estruturas do poder local.
Eu acho que esta migração de quadros não é apenas quantitativa, mas também qualitativamente significativa. O ANAMOLA está a atrair profissionais competentes, pessoas com experiência de gestão e indivíduos que, até recentemente, trabalhavam dentro do sistema. Esta transferência de capital humano qualificado pode acelerar, dramaticamente, a maturação política do partido.
Novamente, a emergência do ANAMOLA está a forçar uma reconfiguração fundamental do panorama político moçambicano. Pela primeira vez desde a independência, existe uma formação política que combina apelo popular genuíno com capacidade organizativa real, liderança carismática e um discurso que ressoa com as aspirações da maioria da população. Só os três pilares definidos pelo partido no seu Conselho Nacional – justiça social, ética política e independência do sector judicial – representam uma agenda que vai ao cerne dos problemas estruturais do país. Ao centrar o discurso na luta contra a “escravidão” e o “roubo” dos moçambicanos, Venãncio Mondlane e o ANAMOLA estão a articular um projecto político que transcende as divisões tradicionais entre o norte e o sul, entre os diversos grupos étnicos, e entre as nossas tradicionais classes sociais. Há nisso um exemplo paradigmático: a necessidade de 10 milhões de meticais para realizar o Conselho Nacional do ANAMOLA, e a aparente facilidade com que esses fundos foram mobilizados, demonstra que o partido tem acesso a recursos financeiros significativos. Esta sustentabilidade financeira é crucial para a viabilidade de qualquer projecto político a longo prazo.
Em suma:
1. O ANAMOLA não é apenas mais um partido político. É a manifestação de uma mudança profunda na consciência política moçambicana. Aceitem ou não, a sua capacidade de mobilização, a qualidade da sua organização e o entusiasmo que gera indicam que estamos perante um fenómeno duradouro.
2. As resistências e os ciúmes que o movimento enfrenta são, paradoxalmente, provas da sua relevância. Quando estruturas e elites estabelecidas se sentem ameaçadas, é porque reconhecem que algo fundamental está a mudar.
3. A deserção de quadros competentes de todos os outros partidos para o ANAMOLA pode acelerar este processo de mudança, criando uma massa crítica de competências que permitirá ao partido não apenas disputar (taco à taco) eleições a todos os níveis, mas também governar efectivamente se for essa a vontade popular.
4. Moçambique está a viver um decisivo e inquestionável momento de transição política. O ANAMOLA, pela sua natureza e características, parece estar bem posicionado para liderar essa transição. O país, depois de meio século de dominação política de uma só força, pode estar finalmente a descobrir o que significa ter uma verdadeira alternativa política.
O futuro dirá se este entusiasmo se traduzirá em resultados eleitorais. Mas uma coisa é certa: o panorama político moçambicano nunca mais será o mesmo.
Edagar Barroso

