Agostinho Miguel, em Mossuril
A violência terá sido desencadeada por rumores que apontavam estas figuras locais como responsáveis pela introdução e disseminação da doença, num contexto marcado pelo medo, pânico e desinformação em torno do surto que afecta a região.
De acordo com fontes no terreno, grupos de populares invadiram as residências das vítimas, promovendo actos de vandalismo em larga escala, que incluíram a destruição total das casas, saque de bens e devastação de machambas pertencentes aos líderes comunitários visados.
As mesmas fontes sublinham que os incidentes não configuram actos de terrorismo, mas sim uma revolta popular espontânea, dirigida contra dirigentes locais vistos pela comunidade como culpados pela crise sanitária.
Dirigentes espancados até à morte
Durante os tumultos, alguns líderes comunitários terão sido espancados até à morte, depois de não conseguirem escapar à fúria da multidão. A violência estendeu-se ainda a cidadãos que tentaram prestar socorro às vítimas, os quais acabaram igualmente agredidos, agravando o clima de insegurança no bairro.
A Polícia da República de Moçambique foi chamada a intervir, mas não compareceu ao local, alegadamente por insuficiência de efectivos, situação que terá contribuído para a continuação e expansão dos ataques.
Como consequência, vários líderes comunitários e secretários de bairro sobreviventes encontram-se em situação de extrema vulnerabilidade, sem habitação, alimentos ou meios de subsistência, vivendo ao relento e sob constantes ameaças.
Até ao fecho desta reportagem, mantinha-se um clima de elevada tensão em Nakoha, com relatos de novas ameaças de destruição de residências de dirigentes ligados ao partido no poder, sem que houvesse informações oficiais sobre detenções ou medidas concretas para o restabelecimento da ordem pública.
Surto de cólera agrava ambiente de medo
Os incidentes ocorrem num momento de agravamento da situação sanitária na província de Nampula. Na última terça-feira (28), a Direcção Provincial de Saúde alertou para a progressão do surto de cólera, que já provocou 18 óbitos, com maior incidência no distrito de Nacala-Porto.
Em conferência de imprensa, Jaime Miguel, chefe do Departamento de Saúde Pública, informou que desde o início do surto foram registados 1.514 casos de cólera na província, dos quais 804 em Nacala-Porto. Nas últimas 24 horas, o distrito notificou 32 novos casos, mantendo-se como o principal foco da doença.
Relativamente às mortes, as autoridades confirmaram que 12 dos 18 óbitos ocorreram na comunidade, antes de os doentes receberem assistência médica. Em Nacala-Porto, todos os cinco óbitos registados aconteceram fora das unidades sanitárias.
Para além da cólera, a Direcção Provincial de Saúde manifestou preocupação com o aumento de casos de Doenças Tropicais Negligenciadas, com destaque para a filaríase linfática, conhecida como elefantíase. Em 2025, foram registados 2.554 casos da doença, representando um aumento de 29 por cento em relação a 2024.
Os distritos de Moma, a cidade de Nampula e Muecate concentram o maior número de casos, situação que, segundo as autoridades, reflecte fragilidades persistentes no acesso ao saneamento básico, à água potável e às medidas preventivas de saúde.
A Direcção Provincial de Saúde reiterou o apelo às comunidades para o reforço das práticas de higiene, o consumo de água tratada e a procura imediata das unidades sanitárias em caso de sintomas, enquanto decorrem acções de resposta para conter a propagação das doenças na província.

