Do palco ao apelo: a dor por trás da cultura em Nampula

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A província de Nampula, uma das mais ricas e populosas do país, carrega um legado cultural vibrante e diversificado, forjado por séculos de trocas entre povos do interior e do litoral, comunidades muçulmanas e cristãs, e tradições orais que ainda ecoam nas aldeias e bairros urbanos. Esse mosaico de expressões culturais, no entanto, enfrenta hoje sérias ameaças.

Nos últimos anos, a erosão do financiamento público à cultura, a desvalorização da arte local nas políticas de desenvolvimento e os impactos devastadores dos eventos climáticos extremos têm fragilizado significativamente o sector. Apesar disso, mais de 1.850 grupos culturais e 47 associações continuam activos na província, sustentando a identidade e a coesão social através da música, dança, teatro e artesanato.

Diante deste cenário de resistência e esperança, nesta terça-feira (21), Nampula celebrou o Dia Mundial da Diversidade Cultural para o Diálogo e o Desenvolvimento, com uma cerimónia realizada no Centro Cultural de Namicopo. O evento, organizado pela Direção Provincial da Cultura e Turismo, teve como destaque o reconhecimento do papel vital da cultura como motor de transformação social.

Francisco Zacarias, Director da casa Provincial da Cultura, representou o governo na cerimónia. Em sua intervenção, exaltou o esforço dos artistas locais na preservação da identidade moçambicana e fez um apelo à ação conjunta para reconstruir o sector cultural. “A cultura é um pilar fundamental para o desenvolvimento. Precisamos resgatar, proteger e potenciar os nossos valores, que são também fonte de rendimento e dignidade para muitas famílias”, afirmou.

O evento foi marcado por apresentações artísticas que reflectiram a pluralidade cultural de Nampula, desde danças tradicionais a recitais de poesia , além de uma exposição de artesanato com peças feitas por criadores locais. Esculturas, tecidos e instrumentos musicais ilustraram a diversidade e o talento que caracterizam a província.

No entanto, o tom da celebração ganhou contornos de urgência quando Zacarias denunciou os efeitos dos ciclones recentes sobre a infraestrutura cultural e os grupos artísticos. “Esses fenómenos naturais não destruíram apenas casas. Arrasaram palcos, salas de ensaio, arquivos culturais. A solidariedade de todos é crucial para reerguer os nossos guardiões da cultura”, declarou.

Zacarias apelou ainda para que os grupos culturais formalizem o seu registo, permitindo-lhes acesso a apoios governamentais e programas de capacitação. Sublinhou que o governo provincial está empenhado em ampliar parcerias com o sector do turismo, criando sinergias que tornem a cultura um eixo estratégico da economia local.

A celebração concluiu com uma reafirmação colectiva da importância da diversidade cultural para o desenvolvimento sustentável, alinhando-se aos Objectivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU. “Esta data é um chamado à ação. É hora de transformar a cultura em política pública e em ferramenta real de inclusão e progresso”, finalizou Zacarias.

Por Victor Xavier

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